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Politica » Cerco a Lula paralisa PT e mostra que falta análise política na política

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Marco Aurélio Nogueira

31 Janeiro 2016 | 20h05

O cerco a Lula vem sendo articulado há anos. Parte do que o impulsiona se deve ao desejo de combater a liderança política do ex-presidente e de usar seus eventuais maus passos para desgastar os governos petistas e embolar o meio de campo. É o lado imediatamente político da operação, ativado por muitos daqueles que têm diferenças com ele, com o PT ou com o governo Dilma.

Neste lado político, é preciso diferenciar claramente duas alas.

Uma é a dos democratas republicanos, a ala que tem maior peso. Querem que a dimensão pública prevaleça sobre os privatismos, que se apurem e se punam os crimes de corrupção, doa a quem doer, que se interrompa a reprodução interminável de “esquemas” e falcatruas, que se criem condições para um debate político de qualidade, no qual o pluralismo esteja presente, os direitos sejam respeitados e a liberdade vigore de modo pleno. São críticos do governo Dilma e dos caminhos seguidos pelo PT, mas procuram fazer uma oposição de caráter programático. Muitos de seus integrantes estão no campo da esquerda democrática.

A segunda ala é a dos que são contra o PT a qualquer custo. Agrega uma variedade de pessoas que se unem basicamente pelo desamor que nutrem pelo governo Dilma. Estão aqui muitos dos que foram às ruas pedir o impeachment, que bateram panelas para protestar contra discursos presidenciais, que não gostam dos petistas. Estão aqui os ressentidos de classe média, aquele montão de gente sem muita coisa na cabeça e que ainda acredita que a esquerda come criancinha e nenhum político presta. E, finalmente, incluem-se também os pequenos grupos histéricos de direita, defensores ingênuos da ditadura, cheios de preconceitos, que atacam Lula mais por seus méritos que por seus defeitos.

Mas há o outro lado, o das investigações, que também precisa ser bem considerado.

Nele comparecem instituições judiciárias e policiais, juízes, tribunais, advogados, delatores, políticos, empresários, servidores públicos e mídias. Cada pedaço destes funciona a partir de certa lógica e pode se deixar levar por interesses próprios. Quanto mais pedaços, mais complexidade e mais dificuldade para a compreensão do quadro e a descoberta do que é verdade e do que é boato ou exagero. A divulgação frenética e incessante de fatos e denúncias ocupa posição destacada aqui: faz com que a temperatura suba e anima um movimento de opinião majoritariamente desfavorável aos suspeitos ou acusados. Como, entre nós, a situação está polarizada ao extremo, toda denúncia feita contra alguém gera uma reação contrária de igual magnitude. Se Lula é suspeito de ter um apartamento no Guarujá, por que não se fala também do apartamento que FHC tem em Paris? Os problemas do PT com empreiteiras e imóveis corresponderiam aos problemas do PSDB com merendas e cooperativas. Clinch. Só que não: os dois pugilistas continuam a se bater e ferir, espalhando socos e sangue para todos os lados. Impulsiona-se assim a polarização, com a qual se imagina zerar o jogo. Posso ter feito, mas quem não o fez?

Entre os que frequentam o ambiente da investigação, existem, claro, pessoas querendo tirar a pele de Lula, gente que quer provocar o “derretimento” de Lula para prejudicar o PT, por exemplo, como gosta de falar Ruy Falcão. Mas este é um ambiente povoado por leis, interpretações jurisprudenciais e ritos, que jogam um peso importantíssimo. Isso sem esquecer que é neste terreno que ganha fôlego o “jornalismo investigativo”, seja na sua versão nobre e digna, seja na suas variantes mais oportunistas, dedicadas a vender jornais, a fazer média com os leitores ou simplesmente a “causar”.

Tudo isso forma um bolo enorme, que causa impacto na opinião pública e ajuda a formar opiniões. Em boa medida, cria um clima favorável a um julgamento por antecipação, que retira dos suspeitos o direito de defesa. Muitas vezes, os grandes jornais diários, os sites e blogs (governistas ou oposicionistas, tanto faz) disputam entre si para saber quem faz a “melhor revelação”, dá o melhor tratamento aos fatos e documentos revelados, faz a melhor defesa dos suspeitos ou apresenta as provas mais “irrefutáveis”.

Abre-se aqui um mundo de questões tradicionais do jornalismo, referentes à ética, à oportunidade, às relações entre reportagem e opinião, entre repórteres e editores. O modo como se noticia uma reportagem nem sempre é completamente fiel ao que mostra a reportagem. Uma manchete significa muita coisa. Nas redes, sobretudo. Seria a hora do “jornalismo político” mostrar sua melhor face: analisar e explicar o que está por trás e embaixo das denúncias, das suspeitas, dos “vazamentos seletivos”, das delações premiadas, dos fatos que inundam o noticiário, contribuindo assim para que o leitor entenda quem ganha e quem perde com as informações divulgadas, contextualizando-as rigorosamente.

Porém, se a política está em crise, por que o “jornalismo político” permaneceria incólume? Ele também é afetado pelo clima geral, também se polariza e perde capacidade crítica, analítica. Termina por não funcionar como um fator de resistência às tendências sociais e culturais que hostilizam e depreciam a política, reduzindo-a a um bate-boca entre culpados e inocentes. Nesta trilha, passa a tratar política como sinônimo de polícia. Em alguns momentos, os jornais têm se convertido em uma sucessão de páginas inteiramente dedicadas à revelação de irregularidades, crimes e delações envolvendo políticos. A análise política dos fatos tem mais dificuldades para se afirmar.

Tudo o que é feito de ilícito ou ilegal por servidores públicos, políticos e governantes deve ser investigado minuciosamente, divulgado e debatido amplamente. Os jornais precisam nos informar a respeito de tudo o que rola nas esferas policiais e judiciárias envolvendo políticos. Os culpados devem ser punidos, presos e condenados. Não há como ser condescendente neste ponto. A liberdade de imprensa cumpre aqui sua maior função. Quanto mais plural e democrática for a imprensa, mais chances os cidadãos terão de encontrar nos jornais uma fonte segura de informações e um recurso importante para formar a sua opinião política.

O jornalismo deve poder duvidar de tudo, e especialmente daquilo que diz o poder político. Ir atrás dos fatos, virá-los de ponta-cabeça, descobrir o que os produz, dando igual tratamento aos envolvidos. Do mesmo modo, tem de duvidar da veracidade de uma “delação premiada” ou de um documento repassado ao jornalista por uma fonte incógnita do Judiciário. Não pode simplesmente converter uma denúncia ou suspeita em notícia e fato inconteste. É aí que entra a análise política.

E é precisamente de análise política que mais necessitamos hoje. Não só na imprensa, mas no Estado e na sociedade. Estamos carecendo de ações intelectuais que descubram a unidade dos contrários, revelem o quadro geral que dão sentido aos fatos, em suma, totalizem e unifiquem. Falta isso até mesmo na política, ou sobretudo nela.

Quando Lula e seus assessores dizem que o ex-presidente está sendo “caçado” pelos inconformados e intolerantes, pelos “golpistas” que desejam “derretê-lo” para prejudicar o PT, é sobretudo ao universo dos investigadores que se referem. Ao menos em parte, têm razão. A temporada de “caça a Lula” está de fato aberta desde ao menos o momento em que ele conseguiu eleger Dilma, em 2010, contra todas as expectativas.

O problema é que esta dose de razão não consegue se traduzir em ação política frutífera. Os dirigentes partidários e os assessores de Lula limitam-se a desmentir os acusadores e a denunciar o que seria uma “orquestração” da mídia monopolizada. Por mais que fatos, documentos, declarações, testemunhas e evidências se acumulem, continuam a dizer que tudo não passa de uma campanha contra o PT, interessada em enfraquecer Lula como candidato presidencial em 2018. Destacam a histeria antipetista para escapar das críticas republicanas. Vão assim fazendo com que as suspeitas e denúncias cresçam e circulem ainda mais, estimulando-as a se converterem em senso comum.

Falta análise política da situação política. É uma falta que se desdobra numa espécie de “hiperpolitização”: põe-se política em tudo, menos no que é mais importante, que seria a apresentação, aos cidadãos, de propostas e caminhos para melhorar a vida coletiva. O tiroteio entre os dois polos — governistas e oposicionistas — bloqueia a inteligência política, fomentando uma dinâmica de destruição recíproca que mina o sistema político e a democracia.

Lula é manchete há muito tempo. Tudo o que se referir a ele será notícia, fresca ou requentada. É o preço da fama e do sucesso. O que impressiona é que ele nada faça para desmontar as acusações que lhe são dirigidas ou para diluir as suspeitas. É uma espécie de autodestruição que, no entanto, em se tratando de Lula, talvez faça parte de algum cálculo político. É possível que a ideia seja que Lula, ao ser acuado e atacado implacavelmente, terá mais facilidade de passar por “vítima dos poderosos” e reagirá com maior determinação, como uma fênix.

O desgaste não é só de Lula. Contamina todo o PT e o governo Dilma. Há muitos petistas julgados e presos, uma nuvem carregada de suspeição e desconfiança pesa sobre a cabeça do partido. Quanto mais se fuça, mais se descobre e mais acusações aparecem. Com a Triplo X, por exemplo, chegou-se ao Sindicato dos Bancários de São Paulo e à cooperativa Bancoop, presidida então por João Vaccari Neto. Um vasto conjunto de “esquemas” e redes de relacionamentos políticos está sendo revelado e desbaratado, comprometendo muita gente, com prejuízos enormes para a imagem do PT e, por extensão, da esquerda. Não se trata de espuma, mas de acusações graves, que podem colocar Lula no centro de uma complexa malha de ilícitos, corroendo todo seu capital político.

O melhor seria reconhecer o que todos falam, sabem e veem. Lula é hoje um homem rico. Depois que saiu da Presidência, tornou-se palestrante, disputado a peso de ouro por empresas e auditórios ao redor do mundo. Tem sabido cobrar por este trabalho. Passou a ter relações poderosas  na política e no mundo dos negócios. Deve ter usado parte destes rendimentos para impulsionar e manter a empresa LILS, que o converteu em pessoa jurídica. Mas o montante arrecadado também serviu para enriquecê-lo e ajudá-lo a melhorar o patrimônio da família. Nada de errado nisso. É a evolução natural de uma pessoa que viveu uma vida inteira de trabalho e soube ganhar algum dinheiro.

Se não há nada mais do que isso — ou seja, se não há comissões, transações escusas, propinas, vantagens pessoais indevidas, uso abusivo de empresas públicas para fins privados, formação de patrimônio incompatível com os rendimentos declarados, etc. –, não haveria o que temer. Bastaria abrir os arquivos e mostrar ao público os documentos que comprovam a idoneidade de Lula (ou de qualquer outro cidadão) e demonstram que a evolução de seu patrimônio está dentro das regras do jogo. Foi o que tentou fazer o Instituo Lula neste domingo, dia 31 de janeiro, com a nota “Os documentos do Guarujá: desmontando a farsa“. Além de acusar os adversários políticos e parte da imprensa por estarem a “criar um escândalo a partir de invencionices”, a nota apresenta documentos que provariam que o ex-presidente não é proprietário de nenhum apartamento triplex na cidade de Guarujá, no litoral de São Paulo.

É uma resposta mais compatível com a gravidade da situação e a dimensão política do próprio Lula. Talvez não seja suficiente, mas pode ajudar a que se passe um pano nas suspeitas que o envolvem e atingem.

O que todos — políticos, militantes, analistas, procuradores, advogados, jornalistas, cidadãos — querem saber não é algo impossível de ser oferecido. É uma questão simples: além de financiar o projeto político do PT, as operações com empreiteiras, lobistas, “laranjas” e empresas também serviram para enriquecer indevidamente alguns dos operadores?

Diante de tantas suspeitas, do rumor que não cessa, da circulação doentia de tantos fatos, factóides e boatos, do desgaste enorme a que estão sendo submetidos, é surpreendente que Lula e o PT não se dediquem intensamente a desmanchar essa nuvem que compromete a imagem positiva que o petismo tem na história brasileira.

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