Além dos consensos fáceis

O antídoto contra a dispersão e o voto nulo não é a candidatura de Lula, mas a capacidade de articulação dos políticos

Marco Aurélio Nogueira

02 Fevereiro 2018 | 17h18

Estamos precisando acertar os relógios. Sob pena de perdermos o bonde.

Dá-se de barato que a condenação de Lula e sua eventual prisão – que poderão levar à impugnação de sua candidatura — provocarão inédita “comoção popular” e tenderão a “comprometer a legitimidade das eleições”.

Será mesmo?

Usa-se como prova disso o fato de Lula ter sido condenado “sem provas” e por um tribunal que estaria “sob suspeição”, fatores que confundiriam os eleitores e os indisporiam contra a política. Em decorrência, sem o nome do ex-presidente na cédula, o voto nulo e branco crescerá de forma assustadora. Como Lula continua com o prestígio em alta nas sondagens de opinião, concluiu-se apressadamente que a maioria do eleitorado ficará impedida de escolher o presidente. O PT, em nota divulgada dias atrás, afirmou que “excluir Lula do processo eleitoral significaria cassar o direito de voto da grande maioria dos eleitores, o que lançaria o país numa crise política e institucional de consequências imprevisíveis, mas inevitavelmente trágicas”.

Será mesmo?

Segundo a jornalista Monica Bergamo, o PSDB torce para que Lula não seja preso. Integrantes da cúpula do partido avaliam que a detenção não levará multidões às ruas, mas “pode gerar ‘ressentimento’ e aumentar a imprevisibilidade da campanha eleitoral”.

Será mesmo?

É possível argumentar em sentido oposto.

O povo pode não compreender as minúcias do julgamento de Lula e de sua condenação, mas conhece bem sua trajetória. Há, evidentemente, uma penca de brasileiros que têm o ex-presidente na mais alta conta e o veem como salvador da Pátria. Podem se sentir órfãos e perdidos com o ocaso de sua liderança e as agruras de sua biografia. Mas nem todos que assim pensam acham que Lula é uma vítima inocente de perseguição dos poderosos. Sabem que ele fez o que os políticos tradicionais fazem, enriqueceu a si e à família, deu nó em pingo d’água para conseguir governar e acumular prestígio, em suma, pintou e bordou como todos os políticos. Sabem que Lula se tornou, ele próprio, um poderoso. Não é um acaso que, nas últimas pesquisas, 55% dos entrevistados manifestam-se em favor da prisão de Lula. E há muita gente (cerca de 1/3 do eleitorado, conforme estimativas do Datafolha) que nunca ouviu falar da condenação ou do julgamento de Lula, ou não se sente com informação segura.

Tribunais são sempre ambientes que tomam decisões controvertidas. Salvo casos extremos, a Justiça não gera consensos fáceis. Suas decisões, porem precisam ser acatadas, como dizem dez entre dez estrelas da política. Ficar jogando pedra nos tribunais, como se eles fossem meras marionetes da elite capitalista que “odeia os pobres”, é uma bobagem, além de ser uma atitude que ajuda a enfraquecer as instituições democráticas, coisa que só interessa aos regressistas.

Na cultura brasileira, a Justiça (o sistema judiciário) sempre foi vista como estando do lado dos fortes e contra os fracos. A população nunca se viu acolhida pelos tribunais, desconfiando deles. Nos últimos anos, houve uma inflexão: com a disposição de “combater a corrupção”, juízes, procuradores e promotores passaram a privilegiar a investigação, o julgamento e a condenação de pessoas ricas e poderosas, tanto do mundo político, como do mundo empresarial. Alegar que Lula seria “vítima” de uma Justiça que vem punindo lídimos representantes da elite, é uma contradição nos termos que não ajuda à sua defesa.

O voto nulo tem crescido firmemente de algumas eleições para cá. A tendência reflete o desencanto dos eleitores com a política e é um fenômeno mundial. Não será necessariamente uma reação contra a ausência de Lula. Impossível saber o que acontecerá de hoje até outubro nesse particular.

Um País que tem inúmeros candidatos mas não consegue compensar a ausência de uma de suas importantes lideranças é uma figura de ficção. Não é razoável dizer que milhões de brasileiros e brasileiras preferirão ficar em casa mastigando a decepção de não poder votar em Lula em vez de comparecerem às urnas.  A “radicalização” anunciada pelo PT perante a condenação de Lula, combinada com o ataque insensato ao sistema judiciário, poderá empurrar o partido para uma posição marginal e comprometer seu futuro.

Não existem indícios de “comoção popular” no Brasil. Há protestos e indignação contra a inépcia dos governos e desorientação diante dos efeitos das transformações que estão convulsionando o cotidiano dos cidadãos e gerando incertezas. Nada disso levará necessariamente a uma “comoção”. Pode até mesmo produzir efeito contrário, abrir clareiras de reflexão e oxigenar a política.

Se o PT deixar de apresentar um candidato competitivo, a fragmentação e a dispersão dos votos poderão se acentuar, mas não muito mais do que em outras eleições. Temos 30 partidos e muitos deles tenderão a apresentar candidatos presidenciais porque é assim que tem sido feito no Brasil: chapas fortes precisam ter candidatos majoritários. Além disso, os partidos estão com uma péssima imagem: a recente pesquisa Datafolha mostra uma rejeição maciça dos partidos. 64% dos eleitores dizem não ter partido, com o PT obtendo 18% de preferência e o PMDB, 5%. É uma tendência que tem acentuado desde ao menos 2013.

O antídoto contra a dispersão e o voto nulo não é a candidatura de Lula ou de quem quer que seja, mas a capacidade de articulação dos políticos. Enquanto o centro continuar fazendo água, tanto na sua inclinação à esquerda quanto à direita, enquanto os democratas seguirem batendo cabeças e as esquerdas não acertarem o passo com a modernidade, a dispersão será um dado difícil de ser superado.