A outra volta do parafuso

Marco Aurélio Nogueira

19 Maio 2017 | 12h29

No fundo, é uma só e mesma crise. Lenta ou bruscamente, articulando momentos de paz aparente com outros de solavancos destrutivos, ela vem penetrando a pele e a carne da sociedade, fazendo-a sangrar.

Uma crise que carrega no ventre diversas crises tópicas, mais localizadas, todas elas enfeixadas em um mesmo processo e seguindo idêntico padrão. É o capitalismo e a sociedade moderna por ele impulsionada que se reacomodam, implodindo as classes sociais que lhes são típicas, os grupos de interesse, as instituições, o modo de viver, pensar, agir e sentir.

Os pactos se desfazem e a sociedade mergulha numa era em que o contrato social flutua e parece esboroar, na falta de um soberano que o faça valer. Governos governam pouco, o desentendimento cresce, ânimos encrespam e polarizações se acumulam como dejetos cristalizados.

Sem esta moldura, fica quase impossível jogar alguma luz sobre a situação política brasileira, que é uma versão da crise geral.


No momento atual, a confusão é enorme, a instabilidade e a incerteza dão o tom da partitura. Torcidas, temores e especulações comandam os espíritos analíticos, que titubeiam e sofrem para encontrar as linhas de força que prevalecem, os interesses em jogo, a correlação de forças e, sobretudo, as saídas.

Se Temer cair, por renúncia ou impedimento, o caos será um. Se permanecer, pelo tempo que for, o caos será outro. Mas será tão somente um tipo diferente de caos. Nada poderá melhorar a situação de Temer, que desceu a níveis difíceis de imaginar e assim prosseguirá na medida em forem sendo liberados os detalhes da delação da JBS. (Ver o Anexo Temer no Estadão.)

O mesmo pode ser dito de Lula e do PT. Se o ex-presidente for preso e condenado, o que não parece provável, a tensão será uma. Se for absolvido e ficar livre, será outra. Nada mudará de forma significativa no plano objetivo, ainda que alguns fiquem felizes e outros se deprimam.

Não é diferente com o PSDB. Se permanecer imóvel, coonestando reformas difíceis em nome da governabilidade e sem nada acrescentar a elas, continuará decaindo. Se pular fora, mas não fizer a devida mea culpa e a inadiável depuração, não voltará a subir.

Em momentos assim, de caos e estupor, a temperatura sobe, as ruas se movimentam e das bocas ávidas saem palavras incendiárias, destinadas a obter aplausos fáceis da multidão. Pensa-se pouco no dia de amanhã. Pensa-se pouco no que já se conquistou e que precisa ser preservado.

Não se valoriza que a Lava Jato está forçando a que se revolucione o modo de se fazer política. Em que pesem seus excessos e arbítrios eventuais, os avanços são fabulosos. Desnudam esquemas corruptos seculares, bem como suas versões modernas e pós-modernas. Mostram quão longe chegaram os dilapidadores da sociedade e do Estado. Estão presos e/ou condenados alguns bambambãs dos esquemas obscenos que entregaram o país para políticos e empresários desejosos de usufruir as facilidades do poder ou as facilidades do dinheiro, ou mesmo ambas as facilidades, juntas e misturadas.

Não se vê que o país não tem como avançar à base de réplicas e tréplicas de situações passadas, numa sequência doentia de revanches e melhor de três. Tiraram o meu presidente? Pois agora eu tiro o deles. É uma lógica burra, paralisante, que nada acrescenta de substantivo, alimenta a crise e leva ao paroxismo fórmulas que não deram certo.

A solução passa pela descoberta de um mapa que seja confiável e consiga agregar o que há de vida saudável na política e nas ruas. Nem tudo está entregue a operadores ilícitos, a conservadores reacionários e a mascarados treinados para desmobilizar. Porque áreas saudáveis também se reproduzem, pulsam e resistem. Elas estão, porém, reprimidas e sufocadas pelo bate-cabeças generalizado, pelo silêncio covarde das lideranças, pelos frêmitos da precipitação que excita, pela falta de diálogo construtivo entre as partes.

Entre todas as partes. Porque é em momentos como o atual que cada pedaço do conjunto social pode mostrar sua legitimidade, sua estatura ético-política, seu desprendimento e sua representatividade, agindo não para turbinar os que já os seguem, mas para estender pontes que forneçam um norte para a sociedade.

Porque não devemos nos deixar levar por ilusões. A crise está aí, não tem data para terminar, é complexa, suas contradições são agudas e não há ninguém propriamente preparado para trazer nas mãos uma solução pronta e acabada. Se é que solução poderá haver.