A mentira mais verdadeira

Marco Aurélio Nogueira

18 Setembro 2017 | 10h58

Foi Lula quem a descobriu, no depoimento prestado a Sergio Moro, dia 13 de setembro. Fez parte do lançamento de um míssil contra Antonio Palocci, seu ex-auxiliar preferido. A intenção foi estigmatizar o delator, tachá-lo de “traidor”. Lula, por isso, buscou a jugular: Palocci é “frio e calculista, tão esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade”.

O expediente de Lula não é novo nem original. Na atual fase de denúncias e investigações, todos os acusados – sem exceção – tentam fugir de seus acusadores valendo-se da presunção de inocência e da falta de provas materiais. Todos alegam não saber do que se trata, que sempre agiram dentro da lei, que as acusações não passam de “mentira” para “criminalizar” a atividade política, tudo nada mais sendo que o resultado das pressões ilegais que a Polícia Federal e o juiz Moro fazem para arrancar delações de pessoas emocionalmente fragilizadas.

Mentiras, como sabemos, têm pernas curtas. Depois de três anos de Lava Jato, se algo houvesse de mentira na montanha de investigações e depoimentos acumulados pela operação certamente já teria aparecido. As narrativas dos que denunciam são convergentes. Todos falam as mesmas coisas, apresentam os mesmos fatos, citam as mesmas datas e os mesmos personagens. Seria preciso que houvesse por trás de tudo um plano sórdido, urdido em segredo e coeso o suficiente para ser assimilado pelos inúmeros agentes do MP e da PF, bem como pelos igualmente numerosos delatores e testemunhas. Não é razoável que se pense assim, ainda que se possa imaginar que no peito de Moro bata um coração antipetista, o que não está a ser corroborado pelos fatos.

Mentira verdadeira pode se aproximar de um oxímoro: mentira e verdade, associação de dois termos que se contradizem. Uma verdadeira mentira, porém, é uma mentira categórica, evidente, que se impõe com clareza. Não contar a verdade e mentir são coisas distintas, e nem todo mentiroso oculta a verdade, ou porque não o consegue ou porque não lhe interessa: sua intenção pode ser finalmente sair da zona cinzenta da mentira para a área iluminada da verdade, ganhando alguma imunidade ou paz de espírito com isso. Como Palocci.

Já as verdades de Lula não são tão transparentes e coerentes assim. São verdades fracas, pouco convincentes, mais próximas da mentira ou da dissimulação.

Em suas diferentes nuances, a mentira é um traço constitutivo da conduta dos políticos, especialistas em simular e dissimular. Não foi por acaso que tantos pensadores associaram a política à “arte do engano”. O demagogo circula com facilidade nos ambientes políticos. Ele promete, adula, busca seduzir, sem se importar com o cumprimento de suas promessas. Ilude, mais do que mente. Durante os períodos eleitorais, a mentira transita livremente. Hoje, com as redes, as fake news complicam ainda mais a situação.

Você não precisa gostar do Dr. House para achar que todos mentem, em maior ou menor grau. A mentira integra o rol de características e de recursos dos humanos. Mente-se para ocultar algo, para se defender de ataques, encobrir atos feios, dissimular emoções. Há até mesmo as mentiras altruístas, tidas como “inofensivas”, próximas de “nobre mentira” de Platão, que são cometidas para proteger alguém, preservar os interlocutores de alguns dissabores ou poupá-los de más notícias. Os poderosos costumam se cercar de assessores que somente lhes contam o que gostariam de ouvir.

Quando alguém se torna mentiroso contumaz, compulsivo, tem-se uma patologia. A mitomania é uma doença, mas há muitas pessoas não diagnosticadas que se acham acima do bem e do mal, não admitem ser criticadas e que se descontrolam quando pegas com a mão na botija, ou seja, quando se revelam coisas que elas gostariam de manter escondidas.

Em suma, a mentira é muito mais frequente nas interações humanas do que se pensa. Na política, ela tem status especial, pois admite-se que possa ser praticada como parte de uma ética que também é especial.

Maquiavel escreveu que se o príncipe não puder ser competente em tudo, deve ao menos parecer sê-lo, especialmente quando isso diz respeito à imagem que deseja passar aos governados. O Cardeal Mazarin, em seu famoso Breviário, não teve qualquer prurido em recomendar aos políticos que disfarçassem todas as emoções e vestissem a máscara da “perpétua amenidade”, ocultando tudo o que pudesse comprometê-los. O filósofo inglês Francis Bacon chegou mesmo a considerar que as mentiras costumam receber “os maiores favores” porque carregam consigo “um natural mas corrompido amor pela própria mentira”.

A mentira verdadeira de Palocci está sendo elaborada para salvar a pele e escapar da prisão. Ela obriga o ex-ministro a comprometer antigos companheiros, parceiros de trambicagens e meros conhecidos, pessoas que caíram numa rede de ilícitos difícil de escapar. Deve ter se desiludido com tudo e nas conversas que tem mantido com o travesseiro na cela onde tem passado os últimos meses deve ter chegado à conclusão de que lhe sobram pouquíssimas alternativas. Contar a verdade pode significar, para ele, a porta da liberdade. Se “mentir simulando uma mentira mais verdadeira que a verdade”, como pensa Lula, o ex-ministro entrara em contradição com suas próprias intenções: se mentir, não obterá o prêmio almejado.

A verdade de Lula, por sua vez, poderia ser vista como “mentirosa”, feita para dissimular, esconder e ganhar tempo. Lula nega tudo, peremptoriamente, com a maior cara de paisagem, chegando ao ponto de descarregar parte das responsabilidades nas costas da finada Dona Marisa. Não há um fato, um papel, uma conta, uma reunião, um encontro, uma viagem, uma transação, um episódio que ele admita. Em sua narrativa, parece nem sequer conhecer bem Palocci, um personagem com quem teria se encontrado poucas vezes nos últimos anos.

Palocci, agora, afirma que chegou a entregar pessoalmente a Lula, em 2010, maços de 30 e 50 mil reais in cash, além de quantias maiores para o Instituto Lula por meio de emissários. O dinheiro teria vindo da conta “Amigo”, mantida pela Odebrecht, e serviria para custear as despesas pessoais do ex-presidente. Lula, por certo, dirá que a revelação integra a mesma estratégia dedicada a criminalizá-lo injustamente.

A grande diferença é que a mentira verdadeira de Palocci parece ter lastro. É coerente, bate com outros relatos e desvenda um mapa articulado. Já a verdade nem tão verdadeira de Lula sustenta-se exclusivamente em negativas.

No primeiro caso, parece uma verdade que se quer apresentar como se fosse mentira. No segundo, tem a cara de uma mentira que se pretende difundir como verdade.

Mazarin e Maquiavel olhariam a cena de soslaio e voltariam para seus gabinetes com tédio e indiferença.