A democracia desafiada

Há um subsolo tóxico liberando gases que bloqueiam o debate político e ameaçam a democracia

Marco Aurélio Nogueira

29 Março 2018 | 17h04

Em artigo publicado ontem em seu blog, o cientista político Carlos Melo observou com precisão: “A humanidade inventou a política para que homens e mulheres não se matassem de verdade.  A política inventou o Estado para que ele, e somente ele, tivesse o monopólio da força física, da violência, o que impediria que homens e mulheres se matassem de verdade. Quando a violência assume a centralidade das relações é porque o Estado, a política e a humanidade falharam”.

Na mesma direção foi o jornalista e analista político Tibério Canuto, em artigo publicado no site do movimento “Roda Democrática”. Para ele, os tiros disparados em ônibus da caravana de Lula e as ameaças aos familiares do ministro Edson Fachin mostram que os piores temores de muitos democratas começam a virar realidade, congestionando e degradando o processo político: “A disputa presidencial se dará em clima altamente radicalizado, dificultando, assim, um desfecho virtuoso para uma crise que se arrasta por quatro anos”.

O país está, de fato, conhecendo uma inédita elevação da temperatura política. Há o período pré-eleitoral turbinando tudo, mas também há coisas mais profundas e perturbadoras por baixo dele. Deste subsolo tóxico sobem gases que envenenam o debate político e desafiam a democracia, arrastando a disputa eleitoral para uma zona de risco.

Os crimes precisam ser denunciados e apurados. Ameaças a juízes e tiros em manifestações políticas são inaceitáveis. É importantíssimo saber que tiros foram aqueles e quem os disparou, tanto quanto investigar quem ameaça Fachin e com quais intenções.

Balas, em política, sempre prenunciam coisas ruins. Expressam uma conversão antipolítica da política, funcionando como uma trava que impede a política de cumprir funções positivas. Em vez da discussão de ideias e do embate entre diferentes concepções com que se pensa governar a vida, prevalece somente o confronto passional. O diálogo fica bloqueado, mesmo entre pessoas que pensam do mesmo jeito, ou quase. Ativistas se convertem em “guerreiros” e passam a amplificar os piores sentimentos humanos, o da violência, da justiça com as próprias mãos, da lei do cão, da arrogância, da vendeta, que encontram ressonância nas redes e em suas práticas de linchamento moral. No final dessa estrada, o menosprezo pelas instituições e pelas rotinas democráticas.

Forma-se assim um arranjo que se move impulsionado por “exércitos” de fanáticos que nada ouvem a não ser seus próprios messias.

É trágico quando a esquerda se deixa arrastar por essa cultura embebida em sangue, ódio identitário e estigmatização dos que pensam diferentemente. O próprio Lula, hoje vítima de intolerância, pouco faz para desarmar o fanatismo cego de seus seguidores. Está deixando de ser líder para se converter em chefe de turma, cabeça de um patronato que nada tem de comum com a democracia. Sua caravana, concebida para proclamar sua inocência e turbinar a campanha eleitoral, soa como uma provocação. Que não poderia ser recebida nem à bala, nem a chicotadas.

Vale o mesmo, com agravantes, para Bolsonaro. Ele também bebe na fonte do irracional, da política como provocação, do chefe como recurso salvacionista. Faz isso há décadas, desde que se lançou na política.

É trágico quando a direita liberal não demarca distância clara e firme de provocadores como Bolsonaro, que faz do anticomunismo um pass-partout para tentar ingressar no mundo do mercado e das liberdades, mundo que lhe é congênito, com o qual não tem intimidade. Trata-se de um engodo e de uma agressão à democracia.

Com essa polarização caricata, vazia de substância mas terrivelmente perigosa, perdem todos.

As balas de Curitiba serviram para que PT, PSol e PCdoB começassem a falar em união, em caminhar juntos, ou menos separados. Pode ser um avanço. O problema é o mote que justifica a união. Fala-se em “escalada da violência” e em “fascismo” sem a devida reflexão, como se a intenção fosse tão somente agitar. Brinca-se com as palavras. E não se explica o fundamental: união para quê, com que propósito?

Voltou-se no tempo, a uma discussão que parecia adormecida no solo das lutas contra a ditadura militar.

Uma frente de esquerda pode ser boa para a esquerda, mas não é necessariamente boa para a democracia. Pode mesmo ser prejudicial, caso venha a derivar para a virulência verbal, a imprecisão conceitual, o ataque a aliados e o desrespeito à lei. Pode funcionar tão somente como rota de fuga e tapume para ocultar fraquezas, sem implicações para a sociedade no conjunto. O diagnóstico pode ser tão falho que não se desdobrará em uma atuação reformadora e empurrará a esquerda para as margens.

A violência que hoje se dissemina está oculta sob mil disfarces. O da “luta de classes” é um deles, o das bravatas de palanque é outro, o do “nacionalismo” outro mais. Há ainda a violência das interdições, das postulações veementes por “reconhecimento” e pela exclusão dos “outros”, aquilo que o antropólogo Antonio Risério chama de negação da “outridade”, que avança sob a cobertura da proclamação de direitos e prerrogativas.

Tudo isso desempenha papel central no crescimento da animosidade, empurrando a sociedade para uma guerra tribal em que não pode haver vencedores.

Neste clima “pós-moderno” de conflagração, de corrosão cívica da convivência, de palavrório grosseiro e ofensivo, adjetivado, seria surpresa se a política conseguisse escapar. Ela é, afinal, o terreno do conflito e do contraditório por excelência. Mas também é uma ferramenta de agregação e organização. Perder isso é por em risco a possibilidade mesma do convívio entre grupos e indivíduos diferentes.

A política degradada é mais sintoma do que causa. Está determinada, ainda que também possa determinar. O círculo vicioso que assim se forma, pela eclosão de retroalimentações diabólicas, impede a política de cumprir seu papel de construtora de mediações e articulações.

A comunidade sofre, evidentemente. Mas, no plano da vida cotidiana, repõe suas energias e suas virtudes, com as quais força a política a cair na real e se renovar.