Diálogo de Dilma com Congresso corre risco de virar bate-boca

Dilma sofre primeira derrota no Congresso, depois de eleita, com derrubada na Câmara do decreto presidencial que regulava a criação de conselhos populares

Marcelo de Moraes

29 Outubro 2014 | 11h05

Bastaram dois dias no período pós-campanha para que o Congresso deixasse claro que a presidente Dilma Rousseff não terá tarefa fácil no relacionamento com deputados e senadores. Na sessão de terça-feira, a primeira deliberativa depois da disputa presidencial, PMDB e oposição se juntaram para derrubar o polêmico decreto enviado por ela, estabelecendo regras para a criação de conselhos populares para a formulação de políticas públicas.

Verdade seja dito, antes mesmo da campanha eleitoral, deputados e senadores já tinham avisado que o projeto teria enormes dificuldades para ser aprovado por conta do seu conteúdo. Na visão dos líderes parlamentares, a proposta representaria uma retirada de competência do Poder Legislativo e ainda abriria a possibilidade para que o governo ampliasse seu poder através da indicação dos representantes desses conselhos.

Mas o que aconteceu na sessão de terça foi mais além. Na campanha mais pesada de todos os tempos, governistas e oposição acumularam feridas e rancores mútuos. Aliados do Palácio do Planalto que se consideraram maltratados também prometeram desforra. Assim, a volta dos trabalhos no Congresso se tornou o palco natural para que os parlamentares dessem seu recado.

E a mensagem foi uma resposta ao chamamento feito por Dilma, logo depois da confirmação de sua vitória, quando defendeu o diálogo como forma de unir os setores divergentes no País. O problema é que oposição e até mesmo partidos aliados, como o PMDB, entenderam a oferta como um discurso meramente pró-forma. Ao mesmo tempo em que acenava com a abertura de debates, anunciava que defendia a convocação de um plebiscito para aprovar a reforma política. A ideia foi rebatida imediatamente até pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), aliado de Dilma que não gostou da possibilidade de o Congresso abrir mão de seu protagonismo na formulação desses projetos.


Na prática, dentro do Congresso, a proposta de diálogo foi vista como positiva desde que fosse feita em termos que contemplassem os dois lados da interlocução. Pemedebistas reclamavam que Dilma deveria ter anunciado que procuraria os representantes do Congresso para debater como fazer a reforma política em vez de avisar que queria um plebiscito para resolver o assunto. Para os parlamentares de oposição, a leitura foi até mais negativa. Ainda com o estado à flor da pele, deputados e senadores oposicionistas reclamaram que Dilma desejava mesmo era uma rendição de seus adversários, em vez do diálogo. E não pretendiam baixar a guarda dentro da Câmara e do Senado.

A nova crise não traz, de fato, qualquer surpresa nos primeiros choques contra o governo no Congresso. Dilma começará o segundo mandato como terminou o primeiro. Enfrenta absoluta dificuldade para administrar o relacionamento com sua base de sustentação. E procura um jeito para destravar a economia do País, mas demora a definir qual será sua equipe econômica, como será seu perfil e que rumo indicará para o Brasil superar os medíocres números de 2014 e buscar a retomada do crescimento.

A novidade da situação é que o diálogo proposta por Dilma já virou bate-boca com os parlamentares muito mais cedo do que se esperava. Com novas denúncias sobre irregularidades envolvendo a Petrobrás podendo ser divulgadas a qualquer instate, a presidente precisará usar muita habilidade para impedir que seu novo mandato já comece com cara de fim de governo.