Todo carnaval tem seu fim?

Vítor Sandes

15 Fevereiro 2018 | 09h16

Dizem alguns que o ano somente começa após o carnaval. Na política, essa máxima parece não ter validade. O carnaval é um espaço de extravasamento social, de manifestações, coletivas ou individuais, permeadas pela expressão de críticas sociais e políticas. Em 2018 não foi diferente. A crítica aos diversos problemas sociais e políticos saiu das ruas e invadiu espaços como os desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro.

O desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti apresentou o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”. A escola de samba propôs um desfile crítico sobre a desigualdade e exploração mesmo após 130 anos da assinatura da Lei Áurea, fazendo um histórico sobre a escravidão no Brasil, bem como as formas mais contemporâneas de exploração do trabalhador brasileiro, em referência à atual situação de precarização do trabalho. A crítica também fez alusão aos movimentos pró-impeachment, bem como ao atual presidente da República, como contexto necessário para tratar da atual situação dos trabalhadores no Brasil, frente à reforma trabalhista.

Já a Beija-Flor de Nilópolis apresentou um desfile com foco em diversos problemas a que passa o país. O desfile da escola (sob o enredo o “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”) relacionou a criatura de “Frankenstein”, da obra de Mary Shelley, ao “monstruoso” Brasil, tecendo crítica quanto à corrupção, à violência e à desigualdade em seus mais variados tipos (social, econômica, racial, de gênero etc.).

As críticas sociais e políticas sempre estiveram presentes no carnaval. No entanto, muitas vezes, elas são invisibilizadas. Tornam-se um não tema para os grandes veículos de informação e, por consequência, deixam de ser abordadas, mesmo quando necessárias. Quando a crítica é apresentada ao grande público, sem um filtro prévio, necessariamente ela se torna um tema, alvo de debate, discussão e reflexão.

Enquanto a crítica pulsou nos desfiles de carnaval, nas ruas, nas casas, em todos os espaços, a classe política parece não estar antenada aos ecos vindos das ruas. A Câmara dos Deputados, em vez de tratar, de forma urgente, as diversas questões que afligem a população, reduzem sua atuação quase que exclusivamente à agenda do governo. Além disso, envia uma mensagem no sentido oposto: completará mais de dois meses sem realizar votações, sendo que a próxima sessão destinada a votações está prevista apenas para o dia 20 de fevereiro.

Respondendo à pergunta: todo carnaval tem seu fim? Para a população, que almeja pelo bom uso dos recursos públicos, por serviços públicos de qualidade e pela preservação e ampliação de direitos, parece ser melhor viver em um carnaval eterno, espaço único em que alegria e insatisfação andam de mãos dadas. Para além disso, somente a realidade política brasileira persiste.