Renovar é um processo longo

Humberto Dantas

12 Abril 2018 | 13h07

Participei essa semana de dois debates com movimentos, projetos e iniciativas que pregam renovação ou inovação na política. Não cabe aqui mencionar onde ocorreram, tampouco quem esteve presente. O desafio aqui é outro. Talvez esteja associado ao fato de que mediar é falar pouco, e para um professor e cientista político é complicado deixar de comentar aspectos associados à nossa realidade política.

Assim, não perece possível deixar de registrar minhas percepções. E que fique sublinhado: são apenas percepções:

1 – Renovar é um processo de longo prazo, e praticamente todos disseram isso. Assim, pobre daqueles que criticam essa galera dizendo que eles vão apanhar nas urnas e são inocentes úteis na política. É óbvio que vão sofrer, está claro que vão ter dificuldades, sobretudo depois das reformas políticas que cada vez mais blindam os atuais mandatários, lhes garantindo controle de recursos financeiros públicos ofertados aos partidos. Mas imaginar que jovens estão olhando para a política e afirmando que precisam mudar algo de maneira prática e efetiva é muito especial e pode contaminar. Valorização absoluta para esses agentes.

2 – Renovar é um processo que desafia valores culturais e práticas cristalizadas que por vezes sequer percebemos que estamos a defender. Assim, é mais do que esperado que por vezes sejam ditas ou feitas coisas que estão longe do que parece razoável e inovador. Mas o jogo é assim: o novo tempo não se apresenta como um acender de luzes, e os processos são longas trajetórias de aprendizado e alteração.

3 – Discursar pela renovação, por vezes, é pregar contra coisas que já existem. Isso mesmo: tem gente dizendo por aí que a Câmara dos Deputados não é transparente e que nada se encontra aberto. Engano de quem compra o discurso fácil e se ancora no que o povo está acostumado a ouvir. A Câmara dos Deputados é uma galáxia de dados, e muita coisa se encontra ali. Reclamar disso é perder tempo.

4 – Movimentos ainda discursam e falam para um público muito restrito. As mesmas pessoas se encontram sempre. Isso é absolutamente necessário e importante, pois dá força ao sentimento de que estamos juntos por uma causa comum que é o fortalecimento da política. Mas daí para converter essa força em votos e impactar eleitoralmente vai uma distância imensa. Não faço campanha, não tenho filiação partidária e raríssimas vezes declaro minhas escolhas, mas é essencial pensar que essa galera não pode cair na velha armadilha do: “todo mundo que eu conheço pensa assim, ou prefere assado”. Esse universo é pequeno demais para a quantidade de votos necessária a uma eleição de qualquer natureza.

5 – O cidadão está começando a ser colocado no centro das atenções. Começamos a perceber que preparar o indivíduo é absolutamente necessário para que ele se insira na sensação de que algo precisa mudar na política. O direito de escolha é do eleitor, e sem construção de novos valores, debate e construção conjunta as coisas nunca sairão do lugar. Isso é absolutamente óbvio, mas nem sempre o elementar é facilmente verificado;

6 – Se existe uma bolha de movimentos e haverá dificuldade de espraiamento para a sociedade, pior ficará se parte desses grupos não dialogarem e se atacarem por conta de recursos, financiamentos e simpatias. Claro que em muitos casos disputarão o mesmo eleitor e morrerão abraçados, mas toda experiência é um aprendizado fundamental. O que oferta esperança aqui é perceber que estão sendo estabelecidos canais de diálogo entre esses cidadãos, que muitos sujeitos estão em mais de uma frente e que podem se fortalecer em rede.

7 – A noção de que o PARLAMENTO é uma arena fundamental para os grupos centrarem seus esforços eleitorais é algo muito especial. Esse é o principal ponto. O Legislativo precisa ser mudado, e não estamos apenas falando do CPF de quem senta numa cadeira do Congresso, mas sobretudo de atitudes. Não se prega o sujeito diferente, se prega a nova atitude. Há uma distância enorme entre uma coisa e outra. Meu entusiasmo, mais uma vez, e já disse isso em outros textos, está absolutamente atrelado a esse olhar pro legislativo. É pelo parlamento que mudamos nosso país. Ou seja: é com mais política que saímos dessa crise, e a política pode e deve ser boa.

8 – Falta ainda a noção de partido político. Alguns pregam candidaturas independentes, outros falam que os partidos escravizam. Partidos são unidades de atuação essenciais na Câmara dos Deputados, e se resta algum tipo de possibilidade de ordenamento e lógica de governabilidade é por conta dessas ferramentas. O problema central está em entender o que faz uma legenda respeitar um acordo com o Poder Executivo e agir unida, por exemplo. É isso que precisa ficar claro para o eleitor e para todos nós que estamos envolvidos com a política. E a partir disso é que passamos a pressionar: os partidos, suas bancadas e líderes. Assim, o que se demanda com urgência é a transparência partidária e o envolvimento da sociedade num olhar mais acurado a essas organizações. As siglas não são o problema em si, a forma como as utilizamos é que gera um desafio imenso.

9 – Das seis pessoas com as que dialoguei na mediação dos debates três eram homens e três eram mulheres. O grupo era muito bem preparado em termos de formação. Todos eram relativamente jovens, e acho improvável que eu não fosse o mais velho – tenho 43 anos. Assim, com diversidade e juventude, podemos seguir mais seguros. Faltam, no entanto e ainda, os negros. E isso preocupa.

 

Ufa! Texto em tom de desabafo, repleto de clichês e sentimentos. Pode ser que fique muito óbvio para alguns e utópico para outros. Para aqueles que acham que é óbvio, provavelmente vivemos dentro da mesma bolha. Para quem achou utópico, provavelmente você não acredita em mudança, ou se beneficia do status quo. Eu acho dificílimo ter grandes resultados desses projetos esse ano, mas se eu não acreditar na possibilidade de transformação, prefiro desistir. E isso eu, por enquanto, estou bem distante de fazer. Avança democracia!