Por que só olhamos para o executivo? O caso Cristiane Brasil

Humberto Dantas

06 Fevereiro 2018 | 09h49

Cristiane Brasil é filha de criminoso condenado pela justiça e cassado pelos pares na Câmara dos Deputados. Talvez o sonho de papai fosse ser herói. Em algumas interpretações, o fato de batizar e denunciar o mensalão parece que poderia lhe ofertar algum tipo de sentimento de agradecimento por parte de uma sociedade surrada pelo que existe de pior em nossa realidade.

Enquanto não chega o dia desse “reconhecimento”, papai preside um partido político que conta hoje com 16 deputados federais e contribui com o governo federal para lhe dar sustentação. Em troca de tal apoio, algo que caracteriza o que se convencionou chamar de presidencialismo de coalizão, o PTB tem “o direito” de indicar ministros e ocupar postos importantes no Planalto. Por sinal, que fique claro: não é apenas o PTB quem tem direito a espaço, que tem condenados controlando suas atividades etc.

Um dos postos a serem ocupados pelo PTB é o de ministro do Trabalho, e para tal posição foi indicada a deputada federal Cristiane Brasil, depois de um parlamentar do Maranhão ser rechaçado pelo grupo de José Sarney – isso mesmo, ele ainda manda muito.

Cristiane foi eleita pelo Rio de Janeiro em 2014 com mais de 80 mil votos. Diz sua biografia no Wikipedia que Brasil – estranho usar o nome do país que deveria nos orgulhar para descrever o que se segue – ocupou cargo de confiança em 2001 numa empresa que administra o “potencial nuclear nacional”. Por lá ficou até que, em 2003, foi nomeada pelo então prefeito do Rio, César Maia (DEM), para uma secretaria extraordinária de Terceira Idade. Sua ligação com tal segmento é extensa, e ela voltaria à pasta com nome semelhante no governo de Eduardo Paes (MDB), mostrando como funcionam partidos governistas em distintos instantes.

Em 2004, provavelmente com o voto de idosos, iniciou trajetória eleitoral como vereadora no Rio de Janeiro por três mandatos consecutivos. Na Câmara Federal, votou para tirar Dilma do poder, foi favorável à reforma trabalhista com terceirização irrestrita e contribuiu com o governo na aprovação da PEC do Teto. Até aqui, tudo tranquilo, pois deputados e partidos votam de acordo com o que representam ou pensam representar.

Em janeiro, a deputada se preparou para o seu mais significativo vôo: se tornar, aos 44 anos, ministra do Trabalho. Foi quando sua vida, ou parte dela, ou o que dizem sobre ela, ou o que ela produziu a respeito dela, veio à tona. Pra começar foi acusada de carregar processos trabalhistas, incluindo acusações de gente que havia atuado com ela em órgãos públicos, sobretudo no Poder Legislativo. Adicionalmente, dias depois, áudio de ameaça a assessores vazou na TV Globo, em clara afronta à lei 9.840/99 – é crime fazer promessa futura de emprego, e ela afirma que só garante a vaga de quem trabalha pra ela se for eleita.

Em seguida, ao início das acusações, vimos um debate intenso na imprensa sobre o fato de o Judiciário poder ou não interferir dessa forma nas nomeações que o Executivo faz. Michel Temer se manteve no apoio e diversos comentaristas políticos defenderam sua posse em posição bem diferente à tomada em governos anteriores.

Mas tudo bem, dias depois da enorme polêmica que mostra o quanto o governo conta e precisa do PTB, e resolve defendê-lo, veio à superfície um vídeo em que a “quase ministra” e quatro amigos descamisados – no sentido literal, e não na metafórica pobreza que nada caracteriza as imagens – defendem a posse. Quem sou eu pra afirmar que todos estavam curtindo um passeio descolado e, de repente, algum gênio, talvez inspirado por uma dose adicional de suco ou refrigerante, em que a dosagem de glicose se somou à indignação e ao sentimento de injustiça, tenha dito: “vamos gravar um vídeo e mostrar que estamos no mesmo barco, e convenceremos a sociedade dos abusos autoritários do Judiciário contra uma pessoa absolutamente pura”. Quem sou eu?

O que se segue nas imagens milhões de brasileiros já sabem. O vídeo foi extremamente mal recebido, a despeito de o presidente da República continuar a apoiando em nome das trocas da coalizão. Lembremos, inclusive, que o PTB já declarou por meio de seu presidente condenado apoio à campanha de Geraldo Alckmin à Presidência – que afirma ter enorme apreço pela figura. Mas voltemos ao vídeo: papai disse que algumas interpretações foram maliciosas, conservadoras e pouco elegantes. Perfeito, concordo que exageros foram cometidos em comentários mais acalorados. Seus autores devem ter bebido o caldo servido no barco. Quem sabe? Mas ele também a repreendeu, desaprovando o uso das redes sociais para a postagem de peças “geniais”.

Para terminar todo esse teatro, mais um apontamento na direção da deputada. Alguém lembrou, e sacou, das profundezas da morosa justiça, de um processo no qual ela está envolvida. Voltamos a 2010. Brasil, alguns de seus assessores enquanto estavam na secretaria de Eduardo Paes, e um ex-cunhado filiado ao PTB e então deputado estadual chamado Marcus Vinicius, teriam dado dinheiro a traficantes que liberaram a entrada da campanha eleitoral para a reeleição do parlamentar na comunidade de Cavalcanti. Os envolvidos negam.

Conclusão: fico me perguntando, e isso não é exclusividade de Cristiane Brasil e do PTB, por que tantos deputados federais carregam suspeitas pouco razoáveis ao que devemos imaginar como ideal para a representação legislativa, e tais absurdos só vêm à tona com destaque quando eles estão prestes a assumir um cargo no Poder Executivo?

Cristiane não pode, por exemplo, ser Ministra do Trabalho e executar políticas trabalhistas, mas pode ser deputada com a maior naturalidade e votar a reforma trabalhista? Executar não, mas legislar tudo bem? Aqui me posiciono claramente: por que vivemos desse “executivo-centrismo” pavoroso e fingimos que está tudo bem com o Legislativo? Ou o ignoramos de tal forma a imaginar que seus componentes são, na imensa maioria das vezes, deprimentes? O que falta para sairmos dessa armadilha? Não somos capazes de perceber que pessoas desse tipo no parlamento inviabilizam qualquer chance de o Executivo ser o espelho do que sonhamos de melhor? Não notamos o quanto os partidos e os parlamentos precisam ser minimamente decentes para a democracia representativa funcionar? Falta muito pra isso? Seríamos capazes de olhar com um pouco mais de atenção para aquilo que faremos diante das urnas em 2018 nas escolhas de parlamentares? Ou vamos continuar nos assombrando toda vez que um deputado suspeito estiver prestes a assumir um ministério?

A partir disso eu toparia discutir se o Judiciário pode ou não interferir nas nomeações do Executivo, desde que, naturalmente, tratemos os casos mais recentes, dos governos do PT e do MDB, com o mesmo rigor ou ao menos sob os mesmos argumentos. Por enquanto não entrarei nesse debate essencial.