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Politica » Eleitores mais exigentes?

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Cláudio André de Souza

19 Janeiro 2016 | 14h58

Entre os analistas políticos, o balanço de 2015 com relação ao cenário brasileiro beirou o desastre em todos os sentidos. Não somente pela forte crise de representação ainda vivida pelo governo petista, mas também referente ao desgaste dos partidos cruciais na competição política nas arenas local e nacional. A Operação Lava Jato espraiou um senso de corrupção entre os cidadãos comuns com maior ênfase na seara petista. Ainda assim, cabe a pergunta: até que ponto os demais partidos imbricados nas investigações escapam do julgamento negativo dos eleitores, gozando de intenso capital político?

O presidencialismo de coalizão favorece a adoção de certas estratégias pelos partidos focados em disputar a presidência. Tais estratégias são distintas das adotadas pelos demais partidos, focados nas eleições locais. Essa estabilidade do sistema partidário não está em perigo, por enquanto, mas põe em evidência o PMDB como o principal partido presente nos municípios e com fôlego para a competição política em eleições municipais. Na verdade, cabe aos analistas retomarem o olhar sobre os desdobramentos de 2015 no grande evento político de 2016: as eleições para prefeito e vereador.

Dentro dos acontecimentos que determinaram o ano anterior, há um debate fértil a ser considerado como pano de fundo para as próximas eleições. Nas grandes cidades onde houve atos contra a corrupção, tivemos novos atores políticos nas ruas e isso foi um ganho ainda pouco matizado por pesquisas acadêmicas e de analistas políticos, de uma maneira geral.

Um dos argumentos que sustentamos sobre estas manifestações recentes diz respeito ao fato de a desconfiança nas instituições ter sido “transferida”, em grande medida, ao Partido dos Trabalhadores (PT), responsabilizando-o quase exclusivamente por erros e posições equivocadas. Estes estariam ligados à economia, corrupção, às políticas públicas, etc. Porém, este cenário demonstra que grande parcela da população brasileira não enxerga que a desconfiança atinge, na verdade, todo o sistema político pelo qual se sustentam as instituições democráticas.

Com base nos dados do Datafolha sobre o perfil dos manifestantes que foram às ruas no primeiro protesto de 2015 (15/mar.), 82% votaram em Aécio Neves nas eleições passadas, 37% tinham preferência partidária pelo PSDB, 37% são assalariados registrados, 74% foram a uma manifestação pela primeira vez e 76% dos entrevistados possuíam o ensino superior.

O perfil dos manifestantes que foram às ruas nesse mesmo dia na cidade de Porto Alegre (RS) em pouco difere da parcela da população que se mobilizou na capital paulista. Segundo a pesquisa realizada pelo Instituto Index, 76% disseram ter votado no candidato Aécio Neves, 87,2% se disseram brancos, 40,5% declararam renda acima de dez salários mínimos, 44% disseram estar decepcionados com o PT e 56,8% afirmaram estar decepcionados com os políticos como um todo. Quando perguntados sobre o que os levou às ruas, 43,8% afirmaram estar indignados com a corrupção.

As eleições municipais de 2016 e a possível continuidade dos protestos contra a corrupção no governo Dilma devem azeitar o protagonismo deste segmento mobilizado e conceituado por alguns pesquisadores como a “nova direita”. Daí que, diante das particularidades das eleições locais, há uma dúvida sobre como estes eleitores tendem a se comportar na preferência do voto, já que posições ideológicas de “opinião” podem assumir uma dinâmica de ascensão de parlamentares preocupados na captura de um voto plebiscitário.

Como a disputa para vereador traz consigo particularidades locais na agenda de discussão, a introdução de uma lógica nacional pode mexer na composição das listas partidárias, mas pouco no ambiente de diálogo sobre pontos concretos do cotidiano dos municípios. No entanto, pode ascender novos representantes políticos concatenados com a disputa por um voto ideológico. Estes podem ser ou não oriundos dos protestos realizados no ano passado [1].

Após milhares de pessoas nas ruas apontando o dedo contra a corrupção, é inegável a expectativa de que tenhamos eleitores mais exigentes no debate em torno da política municipal. É compreensível acreditar na possibilidade de que estes eleitores podem qualificar os parlamentos em municípios relevantes do país, saindo da mesmice das medalhas e honrarias que pouco enfrentam os vícios e os problemas que marcam a vida da grande maioria dos brasileiros.

A “nova direita” parece buscar um debate mais amplo do que as questões locais como determinantes na eleição para vereador. Contudo, não é fácil imaginar que os partidos próximos ou distantes do governo Dilma buscarão agora nacionalizar as agendas, já que grande parte do eleitorado está mais atenta às relações de representação focadas em pautas locais. Ainda assim,, não há como deixar de considerar o peso de uma parcela qualificada do eleitorado em termos de renda, escolaridade e ocupação (médicos, médios e altos funcionários públicos, empresários, etc.). Por sinal, com o fim do financiamento empresarial de campanha, os partidos terão de redobrar esforços para motivar o financiamento de pessoas físicas. Aqueles que estiveram nas ruas podem surpreender o mapa da representação política nos municípios, perpassando, talvez, por reconfigurações dos parlamentos nas grandes cidades.

 

[1] Notícia veiculada ontem pelo Valor aponta o lançamento de candidaturas a vereador de atores políticos ligados à organização dos protestos. 

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