2018 e o desejo de mudança que vem da sociedade civil

Mônica Sodré

01 Fevereiro 2018 | 12h51

São Paulo tem sido um lugar interessante para morar por esses tempos. Quando eu comecei a dar aulas de ciência política, há cerca de 9 anos, me deparava, com certa frequência, com comentários pouco incentivadores sobre a profissão e o objeto profissional que eu havia escolhido.

Quase dez anos depois, muita coisa aconteceu. O país assistiu às melhores taxas de crescimento econômico da história recente e, logo após, a uma redução significativa nos indicadores de emprego, renda e crescimento, nos colocando num cenário de recessão do qual estamos começando a sair recentemente. A queda nos indicadores levou consigo também perspectivas e sonhos de boa parte das famílias brasileiras, que haviam experimentado alguma melhora nas condições de vida durante aquele período.

O país assistiu também à tomada da rua de um povo insatisfeito, ao segundo impeachment, em menos de 30 anos de uma jovem democracia, de um presidente eleito, viu pela televisão num domingo a tarde a folclórica composição da nossa Câmara dos Deputados e tem acompanhado a ameaça de prisão (ou a prisão de fato) alcançar empresários e políticos que antes pareciam blindados.

Se por um lado o noticiário pode nos dar uma sensação de desânimo dado a sucessiva onda de retrocessos e escândalos, a sociedade civil tem dado bons exemplos de engajamento na política, se mobilizando para, por diferentes meios, romper as barreiras de um sistema eleitoral e partidário pouco afeitos à renovação. São Paulo tem assistido à uma proliferação recente deles.

A Bancada Ativista, coletivo cuja primeira atuação eleitoral ocorreu em 2016, teve sua incidência voltada para a Câmara dos Vereadores de São Paulo, por meio da construção de uma campanha que apoiou 8 candidaturas distintas e de maneira suprapartidária. Composto sobretudo por jovens na faixa dos 30 anos, teve entre os destaques Marina Helou, candidata pela REDE e que obteve mais de 16 mil votos, Pedro Markun, também candidato pelo mesmo partido e liderança conhecida no hackativismo e Sâmia Bomfim (PSOL), eleita, e que vem mostrando uma trajetória de crescimento no trabalho parlamentar. O grupo segue em 2018 com foco na atuação municipal.

Com membros na faixa dos 40 anos, o Movimento Agora! reúne 90 pessoas, com destacada experiência profissional em suas respectivas áreas, dispostos a disputar as eleições nacionais nesse ano e com a possibilidade de ter Luciano Huck, membro do grupo, como presidenciável. O grupo segue focado na construção de uma agenda para o país, dividida em áreas temáticas, baseada na combinação do olhar de especialistas com um processo de escuta à sociedade em diversos pontos do país.

O RenovaBR, mais recente, apresenta nessa sexta-feira à sociedade a lista de seus 100 bolsistas, que estão no momento imersos em formação na Sociedade Brasileira de Coaching, na Vila Olímpia, e receberão bolsa mensal em valores próximos a R$ 10.000, de modo a auxiliar os candidatos em sua preparação para o período eleitoral. Dentre os selecionados, ninguém com mandatos eletivos, embora alguns já tenham disputado eleições.

O Movimento Acredito e o Brasil 21, por sua vez, são também duas iniciativas que estão de olho no pleito de ano. O primeiro, formado sobretudo por jovens brasileiros egressos de Harvard, tem entre seus expoentes a jovem Tábata Amaral, ligada à educação. O segundo, liderado por Pedro Henrique de Cristo, tem se dedicado ao diálogo com grupos socialmente periféricos e ao desenho e construção de políticas públicas mais inclusivas.

Destoando da lógica de movimento, a RAPS – Rede de Ação Política pela Sustentabilidade, fundada em 2012 e uma das primeiras a se posicionar pela construção de um espaço de diálogo suprapartidário – e que tem entre seus membros as lideranças à frente de alguns dos movimentos acima – divulgou ontem seu grupo de 2018. A organização, que já contava com 79 membros com mandatos e/ou funções nomeadas, tais como o Senador Randolfe Rodrigues (REDE/AP), acolhe agora mais 102 pessoas, entre eles o líder indígena Almir Surui, de Rondônia, e o jovem João Campos, uma das promessas da política pernambucana. Em outubro, quer apresentar ao menos 150 candidatos/as aos Governos, Congresso e Assembleias, comprometidos em valores e princípios e com ação acompanhada pela organização e seus membros.

Em comum, boa parte dessas iniciativas conta com sobreposição de seus quadros, frequentemente participantes de mais de um grupo. Conta, ainda, com a compreensão sobre a importância dos legislativos e com a disposição de uma geração que tem se mostrado mais consciente do seu papel e sua responsabilidade.

Essas, e outras tantas que não teriam espaço num texto curto, serão testadas em outubro próximo. Nesse sentido, dois pontos me parecem particularmente sensíveis. O primeiro deles, a aparente ausência de um diálogo mais convergente, que permita a aproximação em ao menos alguns poucos pontos comuns e um mínimo de estratégia eleitoral coordenada, de modo a evitar, intra-grupo ou inter-grupo, uma canibalização dos votos e um efeito contrário ao esperado [o da renovação].

O segundo, num cenário em que a cláusula de barreira levará a um menor número de partidos representados no parlamento federal, há chances não desprezíveis de as iniciativas de renovação, com maior apelo junto a determinados seguimentos da sociedade e com melhor prestígio que os partidos políticos, serem usados como caudas eleitorais.  Isso tudo são cenas dos próximos capítulos e, por ora, não podemos correr o risco de tomar a parte pelo todo.

O que fica é a sensação de que a despeito dos entraves, 2018 é o ano em que a minha geração começa a colocar o pé na política institucional. Provavelmente não abriremos a porta, mas que a gente não negligencie as frestas das janelas. Começa em 2018. Não acaba em 2018. O meu sincero desejo de que a gente, enquanto geração, consiga fazer diferente do que está aí.