1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Sem Campos, Rede e PSB terão de se entender

Julia Duailibi

14 agosto 2014 | 00:06

A morte do presidenciável Eduardo Campos (PSB) tira dos bastidores e coloca em primeiro plano a conflituosa relação entre o PSB e a Rede, de Marina Silva.

PSB e Rede coexistiam num equilíbrio frágil dentro da mesma coligação graças a Campos. Político habilidoso que buscava a convergência, o presidenciável atuou muitas vezes como bombeiro dessa relação, apaziguando conflitos envolvendo a vice e seu partido – e em alguns casos a vice e potenciais aliados.

Foi o que fez na montagem dos palanques regionais, cujas alianças pragmáticas do PSB causavam arrepios na Rede. O exemplo mais evidente ocorreu quando o PSB paulista, com o seu aval, resolveu apoiar a reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo, à revelia de Marina, que chegou a ser usada como garota propaganda da dobradinha tucano-socialista. Campos teve de mexer os pauzinhos para minimizar o mal estar.

Também tentou quebrar a resistência do agronegócio a Marina. Com a vice a tiracolo, participou de sabatina na CNA (Confederação Nacional da Agricultura), onde elogiou a gestão dela no Ministério do Meio Ambiente, criticada pelo setor. Em tom conciliatório, afirmou que a presença da vice no evento mostrava disposição para o “diálogo sereno e seguro” – Marina dificultou a relação com o setor ao vetar o apoio de lideranças do agronegócio à campanha.

Se por um lado Marina apareceu nas pesquisas de intenção de voto com um desempenho melhor que Campos, por outro ela foi dona de uma postura política mais sectária que o colega de chapa – quando governou Pernambuco, Campos seguiu à risca a cartilha da governabilidade e trouxe para o seu barco governista partidos de diferentes colorações políticas.

Nos bastidores, integrantes da campanha diziam que Marina aceitou ser vice porque, na realidade, queria rodar o País e criar o seu partido, a Rede, e que esse era o acordo tácito com Campos. O PSB, por sua vez, só topou Marina porque estava de olho nos 20 milhões de votos que ela obteve em 2010.

Mas agora, sem Campos, Rede e PSB terão de se entender, e tudo indica que não será tarefa fácil. A decisão mais provável é que Marina assuma a cabeça de chapa da campanha – e sem dúvida isso deve trazer novos conflitos no dia a dia, mas dessa vez não haverá Campos para colocar panos quentes.

Há poucas semanas, conversando com um dos coordenadores da campanha do PSB, questionei a razão pela qual o candidato, que se apresentava preocupado com os rumos do País, não havia deixado Marina na cabeça de chapa, já que ela aparecia mais bem posicionada que ele nas pesquisas.

“O problema da Marina ser candidata a presidente é que ela pode vir a ser presidente”, respondeu, rindo. Para ele, uma eventual gestão de Marina seria um caos, diferentemente de uma Presidência sob Campos, o candidato ideal, mas que para chegar ao Planalto precisava dos votos dela.

Se esse for o pensamento majoritário no PSB, as coisas terão muito o que mudar.