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Maluf anuncia apoio a Dilma e diz ser comunista perto de Lula

Julia Duailibi

26 maio 2014 | 05:44

O deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) foi protagonista da maior polêmica da eleição de 2012, quando recebeu uma caravana de petistas, entre os quais Lula e o então candidato a prefeito Fernando Haddad, para fechar a aliança entre o PT e o PP. O aperto de mãos que selou a coligação entre os dois partidos, antes adversários, virou símbolo do pragmatismo eleitoral do PT. As fotos estamparam as páginas de todos os jornais, circularam pela internet, foram alvo de piadas e ataques, mas não custaram a eleição de Haddad, conforme haviam previsto na época os líderes do PT.

Agora Maluf se prepara para embarcar na campanha à reeleição de Dilma Rousseff e do ex-ministro Alexandre Padilha (PT), em São Paulo, embora diga que ainda não definiu sua posição na eleição no Estado. Ao lembrar da aliança fechada com o PT em 2012, o deputado e presidente do PP estadual diz que nesse ano será igual: casamento no altar.

“Eu não caso no porão. Só caso no altar. E tem que ser com cardeal. Disse: se o Haddad vier aqui em casa, e com Lula e Rui Falcão (presidente do PT), e os deputados do PP, então isso sim é um casamento público. Como agora vai ser igual. Seja com quem a gente fechar. Vai ser público”, afirmou.

O apoio do PP renderá a Dilma mais 1 minuto e 16 segundos no horário eleitoral. “Vai ser um massacre”, disse Maluf sobre a exposição que a presidente e candidata à reeleição terá na televisão em comparação com os adversários.

Sobre a aliança com um governo que se diz de esquerda, Maluf afirmou: “Eu não financiaria, por exemplo, a indústria automobilística com dinheiro do BNDES, mas o PT faz. Então o PT nisso aqui também é direita. Eu sou comunista perto deles”.

O PP vai se coligar com o PT na eleição nacional e na estadual em São Paulo?

Há mais de 20 anos sou presidente nacional ou presidente local do PP. Presidente é aquele que segue o ponto de vista dos outros companheiros de partido. Então, no que se refere à Presidência da República, na terça-feira, vamos ter um almoço em Brasília, onde tudo conversado, com todo mundo, vamos dar o apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Isso foi muito bem pensado. Com todo o respeito aos outros oponentes, a eleição é para presidente da República. Não acho que temos de ter preferência de pessoas, mas de programas. Na minha visão, Lula superou as expectativas como presidente excepcional que foi. Um homem sem rancores, que não perseguiu ninguém, nunca falou mal de ninguém. Acho que Lula é um exemplo a ser seguido. A Dilma, nesses quatro anos, com todas as dificuldades mundiais, foi uma boa presidente. Esteve presente em aquilo tudo que se referia a resolver os problemas do Brasil.

Apesar das últimas pesquisas, Dilma ainda enfrenta problemas de popularidade e aumentou a chance de a eleição ir para o segundo turno.

Sem querer criticar Aécio e Eduardo Campos (PSB), mas quem no momento tem as melhores condições de governar o Brasil com tranqüilidade é ela. Primeiro, porque ela tem as três maiores bancadas com ela. Segundo, a experiência da história brasileira mostra que, quando alguém se elege sem apoio político, não governa. Vide Jânio Quadros e Collor. O Congresso pode não te ajudar, mas pode te atrapalhar muito.

Ela tem o apoio do PT, do PMDB e do PP. Nós três juntos temos 210 ou 212 deputados, que representam 40% do Congresso. Isso dá para ela uns 13 minutos de tempo de TV no horário eleitoral, 4 minutos para o Aécio e 2 minutos para o Eduardo. Aqueles que dizem: fulano pode subir quando vier o programa eleitoral… vai ser um massacre. Ela vai ter 500 comerciais de 15 segundos por dia ou 250 de 30. Se você juntar a propaganda das Casas Bahia, da Caixa, da Petrobras, da Skin, da Brahma, da GM e da Volks, é menos do que ela vai ter. E ela tem coisa para mostrar. Todas as obras que são feitas aqui no Estado de São Paulo, como Rodoanel e Metrô, é com verba federal.

Setores do PP preferem a aliança com Aécio, como o presidente de honra do partido, Francisco Dornelles (RJ).

Você tem que respeitar o interesse contrariado. Se não respeitar, você nunca vai poder viver em sociedade. O Dornelles era sobrinho do Tancredo. A mãe dele era irmã do Tancredo. Isso tem que respeitar. Se dependesse dele, o PP teria que ir para o Aécio. Segundo, há casos pessoais. A Ana Amélia, do Rio Grande do Sul, que é a nossa candidata favorita, está num lugar que o candidato contra ela é do PT. Como é que ela vai apoiar a Dilma? Então, você tem que respeitar. No Acre, também. Onde tem os governadores do PT, em vez de ajudar a Dilma, atrapalha. Você tem as eleições locais que não tem nada que ver com a eleição nacional.

Em Minas, Aécio tem prestígio local e o atual governador é do PP (Alberto Pinto Coelho), que era vice do  Anastasia (Antonio Anastasia, ex-governador e aliado de Aécio que se desincompatibilizou para disputar o Senado). Ele vai ter que apoiar o Aécio. Seria para nós uma incongruência ou violência obrigá-lo a uma posição diferente. Então, você tem uma minoria que vai para o Aécio que você tem que respeitar.

O PP apoia Dilma porque quer manter o Ministério das Cidades?

Não. Veja, no Ministério das Cidades foi importante ela reconhecer o valor do partido. Nós temos 41 deputados federais. Com o Pros, somos a terceira maior bancada, depois do PT e do PMDB. Depois, em todo regime democrático, quem ganha governa junto. Então, nós tivemos lá um companheiro que ajudamos a colocar, o (ex-ministro) Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), que foi tão bem, que eu torço para que, se a presidente Dilma se reeleger, ela se ilumine e traga ele de volta. Ele foi muito bem. Todo mundo adorava ele.

Ela nos deu um lugar muito importante, a Secretaria do Saneamento, que é a maior secretaria, que tem mais verba. Está lá um homem que eu nomeei, Osvaldo Garcia, um engenheiro aqui de São Paulo. Então, quando chega para mim alguém do interior do Amazonas, do interior do Ceará, não tenho por que atender o interior do Amazonas ou do Ceará porque faço política em São Paulo, mas eu me sinto importante em poder ajudar um município do Brasil a ter menos hepatite, menos mortalidade infantil… Então, ela reconheceu isso, e eu quero dizer que o homem que a gente indicou está fazendo um absoluto sucesso lá. É um homem correto, decente e competente.

O que pesa para fechar aliança é a participação no governo? Os partidos não têm mais nenhuma posição ideológica?

Ideologia aqui não tem. Todo partido é de centro ou centro-direita. Quem diz que é de centro-esquerda diz porque é bonito, mas quem fez as maiores concessões para desonerações para as multinacionais foi o governo do PT. O governo do PT deu tanto para as multinacionais que nem o Bill Clinton daria. Por quê? Porque o Lula viu com muita inteligência que o pior problema do mundo é o desemprego. Quando ele mantém o emprego na Volkswagen, na Mercedes e na Ford, ele mantém um consumidor e um pagador de impostos.

Em São Paulo, o PP vai de Padilha?

Aqui não tem definição ainda. Estamos fazendo uma pesquisa com todos os vereadores, prefeitos e vice-prefeitos.

A Dilma vai pedir o apoio a Padilha.

Vai, vai, mas aí, sabe… Eu tenho muito respeito pelo Padilha, e não olho sob nenhum outro aspecto que não seja São Paulo. Quando eu apoiei o Haddad (o prefeito paulistano Fernando Haddad, que se elegeu em 2012), o Serra teve duas vezes na minha casa com o Aloysio (senador Aloysio Nunes Ferreira, aliado de Serra). Eu pensei: se ele foi prefeito e largou a Prefeitura com 1 ano e três meses, tá com 70 anos de idade, ele quer ser prefeito para ser o melhor prefeito ou usar São Paulo de trampolim? Eu não o apoiei porque ele não seria um bom prefeito. Ele ia sair para ser candidato. Quando apoiei Haddad, não foi por outro interesse senão São Paulo, porque ele tinha 3%. Serra tinha 31%. Era muito mais cômodo para mim apoiar o primeiro da lista, mas eu apoiei o perdedor, que foi ganhador. Não tenho nenhuma dúvida que Fernando Haddad vai sair consagrado como prefeito. Ele é sério, é honesto, é bem intencionado e não quer usar São Paulo de trampolim. Isso para mim vai pesar também na escolha para governador…

O Palácio dos Bandeirantes dá quase como certo o apoio do senhor a Padilha…

Eu gosto do Alckmin, mas se você é líder, você é liderado do seu liderado. Não existe acordo sem que haja um mínimo de interesse público, programa. Não faço acordo sem programa. Quando eu fiz o acordo com Haddad, eu disse que comecei minha vida como presidente da Caixa Econômica Federal, fiz o melhor programa de habitação, o Cingapura, então se me desse a Secretaria de Educação, Saúde, Casa Civil, não quero. Ele disse: ‘Você quer construir casa?’. Eu disse: ‘Eu quero’. Esse mundo terreno a gente quer deixar alguma coisa. Então, eu fiz, e ele cumpriu direitinho. Então, com o futuro candidato a governador a gente vai ter que ter um tipo de entendimento nesse aspecto.

De participação no governo? Mas o partido do senhor também participa do “programa” do governo estadual, ocupa a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano).

Não participa, porque lá o entendimento que houve foi para a gente ficar com a CDHU, mas foi um entendimento que nunca aconteceu, porque o Silvio Torres (PSDB), que era o secretário de Habitação, não queria nada. Por que eu, que não sou governador, tenho que brigar para as coisas funcionarem? Esse é um problema do governador, e lá a coisa não funcionou. O que eu poderia ter feito, tendo o Ministério das Cidades comigo, e tendo o Minha Casa, Minha Vida, o que eu poderia ter feito por São Paulo, poderia ter sido muito bom para o Alckmin.

Eles não cumpriram o acordo?

Não vou dizer que eles não cumpriram porque não sou de fazer crítica, mas não funcionou. Aonde vai funcionar é na Prefeitura, porque o prefeito nos deu a secretaria de Habitação e a Cohab (no governo do Estado Maluf queria o controle da secretaria também). Agora a responsabilidade de indicação é minha. Desde o inicio eu disse: ‘Se não performar bem, põe na rua’. Comigo não tem direito a ser preguiçoso. O que o prefeito vai fazer aqui em São Paulo vai ser uma revolução no sistema de habitação.

O que o senhor quer dizer é que o PT cumpriu mais o acordo que o PSDB?

O PT cumpriu, o PSDB não cumpriu. Mas não me queixo. Sabe por quê? Porque honestamente hoje eu vivo dos dividendos eleitorais do que eu realizei. Não é que eu fui votado nas 645 cidades. Eu fui votado nas 77 mil urnas.

 

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O PT sofreu críticas quando, em 2012, em troca do apoio a Haddad, toda a direção do PT, inclusive Lula, teve que fazer uma reverência ao senhor…

Não pedi reverência. Foi o seguinte: eu não caso no porão. Só caso no altar. E tem que ser com cardeal. Disse: se o Haddad vier aqui em casa, e com Lula e Rui Falcão (presidente do PT), e os deputados do PP, então isso sim é um casamento público. Como agora vai ser igual. Seja com quem a gente fechar. Vai ser público.

Eu gosto do Alckmin, acho um homem correto. Skaf (Paulo Skaf, pré-candidato do PMDB) representa uma boa esperança, e o Padilha tem uma vantagem, que com a eleição da Dilma, que é inexorável, Padilha é quem tem as melhores condições de pegar recurso para São Paulo.

Se vai ser eleita a Dilma, tem que eleger alguém com sintonia com o governo federal. 32 acabou (a revolução de 1932, quando os paulistas se rebelaram contra o governo federal). Pode ser que seja o Alckmin, ele tem sintonia. Pode ser o Padilha ou o Skaf.

O senhor esteve com Alckmin para discutir aliança?

Estou com ele sempre. Sempre converso com ele. Mas partido é partido. É diferente.

Os empresários criticam Dilma. Há dez dias, o presidente da Cosan, Rubens Ometto, foi aplaudido de pé quando criticou o atual governo em um evento em Nova York para outros empresários.

Você tem que entender que todo empresário gostaria de ganhar mais. Não é que a crítica é porque vai mal, mas a crítica é porque gostaria que fosse melhor. O Binho não tem razão nenhuma para ser pessimista, ele era minoritário numa usina de açúcar, hoje é majoritário em 20. Acho que é um homem bem sucedido, um homem competente, correto, merece ser bem sucedido, mas não tem razão nenhuma para se queixar. Está se queixando dentro de um Rolls-Royce, em Paris, tomando champanhe.

As críticas são da boca para fora. O empresário, por via de regra, quer que as coisas sejam melhores do que estão. Na média, o Brasil progrediu mais do que outras nações nos últimos 50 anos. Veja a Argentina. Há um século era maior que o Brasil. Hoje é menor que o Estado de São Paulo. Então, para que mudar? Nossa empresa, graças a Deus, vai mundo bem, mas não é por causa disso que eu apoio ela (Dilma). Apoio ela porque acho que ela é uma mulher correta, decente, sincera, tem coragem de mudar as coisas e diz o que pensa.

O ex-prefeito Gilberto Kassab disse que o seu partido, o PSD, não era de centro de nem de direita nem de esquerda. Como o senhor se define hoje, já que apoia um governo que se diz de esquerda?

Eu? Eu sou um homem de centro. Como é governo de esquerda se está financiando a BMW para instalar uma fábrica de automóvel no Brasil? É um rótulo para bobo acreditar. Não tem mais direita nem esquerda no mundo, o que tem é produtividade, o que tem é qualidade de produção. Então, eu não financiaria, por exemplo, a indústria automobilística com dinheiro do BNDES, mas o PT faz. Então, o PT nisso aqui também é direita. Eu sou comunista perto deles.