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Campos e a montagem de um discurso híbrido

Julia Duailibi

20 março 2013 | 20:54

O presidenciável e governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), tentará construir uma candidatura híbrida, com um pé no governismo (afinal o partido é da base da presidente Dilma Rousseff e tem dois ministérios na Esplanada) e outro na oposição. Na prática, intensificará a maneira como vem se comportando até agora.

Campos quer manter a imagem de um candidato de centro-esquerda, por isso não pode se afastar muito do governo, que se apropriou desse rótulo. Não quer ser dragado para o pólo oposto ao de Dilma Rousseff, candidata à reeleição e cujo governo tem aceitação popular. Mas o governador sabe que, para se tornar viável eleitoralmente, se resolver disputar o Palácio do Planalto em 2014, vai precisar avançar na preferência de eleitores mais conservadores que hoje votam no PSDB. Na briga pelo segundo turno na eleição de 2014, tomando como base o quadro hoje, Campos teria de disputar uma vaga com Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (Rede) – Dilma provavelmente ocupará a outra vaga. Para ampliar os votos, teria de avançar em direção aos eleitores que sustentam essas duas candidaturas de oposição.

Campos já mantem contato com os tucanos. Tem boa relação com os economistas da Casa das Garças, centro de estudos de política econômica no Rio, do qual fazem parte ex-integrantes do governo FHC, como Pedro Malan. Tem, inclusive, procurado se aconselhar com alguns deles. Em São Paulo, seu partido é da base de Geraldo Alckmin, com seu amplo consentimento. Campinas é a principal prefeitura do PSB no Estado, e o prefeito Jonas Donizette é frequente interlocutor entre os mundos tucano e pessebista. Alckmin, candidato à reeleição, poderia inclusive dar um palanque extraoficial ao candidato do PSB no maior colégio eleitoral do País.

Recentemente, o governador de Pernambuco manteve duas conversas com o presidente do PPS, Roberto Freire, partido de oposição a Dilma e tradicionalmente alinhado ao projeto tucano, que agora flerta com a sua candidatura – o ex-governador José Serra, por exemplo, foi convidado a ingressar na legenda de Freire, onde poderia apoiar a candidatura de Campos, caso não haja a convergência no PSDB para o projeto de Aécio.

De certa forma, Campos já sinaliza para o eleitor simpático ao PSDB. Em conversas com o PIB paulista, critica a condução da política econômica de Dilma Rousseff e se coloca como uma alternativa ao atual modelo.

Em 2006, disputou a eleição em Pernambuco contra Mendonça Filho (DEM), candidato da situação apoiado pelo ex-governador Jarbas Vasconcelos (PMDB), e Humberto Costa (PT). Com pouco tempo de TV, ganhou a corrida ao ficar como uma espécie de terceira via. Era contra o governo de Jarbas, mas não era visto como “o” candidato antigovernista.

Na semana que vem, Campos se encontrará com Dilma em Pernambuco. Certamente será hora de deixar em banho-maria esse discurso mais híbrido. O governador, anfitrião do encontro, enaltecerá os feitos do governo petista e a “relação republicana” com o governo federal. Por enquanto, as críticas ao governo ficam para os bastidores. Principalmente nos encontros com empresários, quando os ataques à política econômica são muito bem recebidos.