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Aécio a favor do fim da reeleição, pero no mucho

Julia Duailibi

quarta-feira 04/06/14 06:08

Texto publicado ontem no Estadão noite

O pré-candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, tem citado em seus compromissos de campanha os pilares do que seria uma reforma política promovida por seu governo, em caso de vitória. Ele defende a instituição do voto distrital misto, a diminuição do número de partidos e, como cereja do bolo, o fim da reeleição com mandato de cinco anos para todos os cargos eletivos – proposta que já lançara quando era governador de Minas Gerais, em 2007.

Reforma política é uma daquelas bandeiras que caem bem em ano de eleição. Todos os candidatos dizem ser a favor. Quando questionados sobre as razões que podem levar o eleitor a acreditar que, dessa vez, eles vão mesmo conseguir a aprovação de uma reforma no Congresso, dizem que têm “vontade política” suficiente para a missão. Nunca ouvi nenhum dizer: “Ok, é uma bagunça mesmo esse sistema, mas não vamos mexer porque contraria interesses e dá um trabalho…”. Ninguém diz ser contra a reforma, mas quando a caneta está na mão a história é diferente.

Em entrevista para ao Roda Viva, da TV Cultura, ontem, Aécio disse ter a tal “vontade política” para fazer a reforma e declarou que pretende promover as alterações no sistema “no início do governo”. Mas perdeu a oportunidade de deixar claro o que realmente importa: o fim da reeleição vale a partir de quando? Aécio abrirá mão de uma segunda disputa, caso seja eleito neste ano?

O pré-candidato não quis se comprometer. “Olha, eu não faria nenhuma questão da reeleição”, afirmou. Mas, logo, emendou: “Óbvio que quando eu falo de um mandato de cinco anos para todos os cargos eletivos, nós temos que estabelecer uma coincidência. E obviamente que ninguém vai falar de prorrogação de mandato. O fato de disputar ou não a reeleição é uma decisão à frente.”

Aécio já havia dito que defendia a nova regra na eleição de 2018. Mas ontem, ao ser indagado, saiu de fininho. Se ele não abrir mão da reeleição, então sua proposta não valeria mais para 2018, certo? Só para depois que ele for reeleito?

A reeleição não funcionou no Brasil. Os governantes evitam tomar medidas necessárias, porém impopulares, porque pensam na reeleição. Compõem maiorias e loteiam o governo de olho no tempo de TV e no apoio dos partidos às suas campanhas. No ano passado, ao comentar a questão, Aécio disse: “Não é mais a senhora presidente da República, Dilma Rousseff, que governa o Brasil. Quem governa o Brasil é a lógica da reeleição”.

Com o fim da reeleição devem continuar alguns vícios da política brasileira, como o favorecimento do candidato governista pelo uso da máquina. Mas é possível que haja também uma maior preocupação do governante de salvar sua biografia, para voltar depois de cinco anos. Cinco anos sem reeleição seria mais saudável para o País. Seria bom também se Aécio tivesse sido mais claro e se comprometido, de fato, com a ideia.