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As oportunidades abertas pelo imprevisível

João Assis

quinta-feira 14/08/14 21:06

O imprevisível aconteceu com a morte trágica de Eduardo Campos, e deixou a campanha eleitoral de 2014 em um estado de expectativa tensa, algo ainda sem rumo. Será Marina Silva realmente a substituta do ex-governador de Pernambuco na chapa liderada pelo PSB? E isso se confirmando – a despeito das resistências que a decisão inevitavelmente enfrentará no interior do PSB -, ela conseguirá empalmar o sentido de renovação política que Campos simbolizava para muitos eleitores brasileiros e conseguirá assumir, ao mesmo tempo, o perfil de liderança crítica, mas aberta ao diálogo que ele quis desempenhar para garantir o sucesso da sua candidatura e do projeto plural representado pela coligação de socialistas e ´sonháticos´ da Rede de Sustentabilidade?

Mais ainda: Marina sendo confirmada como candidata à presidência pelo PSB e partidos coligados, conseguirá recuperar o apoio dos quase 20 milhões de eleitores que em 2010 sufragaram o seu nome? Isso acontecendo, a eleição de 2014 será decidida no segundo turno? Quem se beneficiará com esses possíveis – e até agora inesperados – desenvolvimentos, Dilma, Aécio ou a própria Marina? Terá mais chances agora o discurso de oposição em face dos quase 1/3 de eleitores que, segundo as pesquisas de opinião, não têm até o momento candidatos de preferência ou sequer se mostram mobilizados pela disputa eleitoral?

Nada disso tem resposta fácil, mas é da natureza do imprevisível suscitar essas indagações. A nova situação política criada pela morte do candidato que estava em terceiro lugar na disputa abre uma janela de oportunidades até agora inesperadas; é como se a campanha eleitoral de 2014 estivesse recomeçando. Faço referência a seguir a alguns aspectos que ao meu juízo estarão envolvidos nas possibilidades abertas, sem a pretensão de esgotar o tratamento das questões.

Em primeiro lugar, há o grande desafio que Marina Silva enfrentará, se efetivamente vier a ser confirmada como substituta de Eduardo Campos, para manter o tipo de liderança política marcado pela moderação e pela flexibilidade na busca dos objetivos ideológicos e políticos da coligação inédita que, pela primeira vez na história do país, alia uma parte da esquerda moderada com setores das forças que falam em nome do desenvolvimento sustentável e da preocupação com o meio ambiente. Isso nunca existiu antes e tem uma potencialidade algo insuspeitada, mas demanda imensos cuidados e habilidades especiais na sua construção.

Marina tem uma trajetória de vida e bagagem política que podem ajudá-la a enfrentar isso, mas terá de se desvencilhar de posições vistas, às vezes, como rígidas demais se quiser descomplicar a sua capacidade de dialogar com setores que, sendo diferentes do seu grupo, mas querendo se aproximar do projeto, precisam ser devidamente acolhidos sem isso implicar em abrir mão de objetivos estratégicos. Fazer isso não é fácil, mas é uma característica dos verdadeiros líderes políticos e pode ser a via para a emergência de uma nova liderança plural e crítica, ainda inexistente no cenário político brasileiro; Campos estava indo nessa direção, mas a alternativa ainda estava em construção, e foi interrompida pela sua morte.

O cenário comporta, no entanto, outras possibilidades. A presidente Dilma Rousseff, auxiliada pelo ex-presidente Lula da Silva, vai se mover, sem sombra de dúvidas, para tentar capitalizar o apoio eleitoral que até dias atrás estava dispensado a Eduardo Campos. Ela já deu sinais nessa direção na aparição de TV que fez no dia da morte de seu ex-colega de ministério ao falar da relação que os unia, da sua experiência comum no governo Lula e de supostos objetivos políticos compartilhados; nenhuma referência, contudo, foi feita às críticas de Campos ao seu governo. A dúvida é se essa atitude, marcada por uma ponta de cinismo, vai colar na opinião pública em vista da agressividade dispensada até recentemente pelo PT – e pelo próprio ex-presidente Lula, apesar da suposta amizade que unia os dois – ao candidato que abandonou a coalizão governista. Sem poder falar das críticas que Campos lhe fazia para não armar uma armadilha para si mesma, em especial, quanto à condução da economia, Dilma vai tentar se apropriar, embora em terreno inseguro, dos votos antes dirigidos ao seu opositor, mas duvido de sua capacidade de sucesso; ela não tem perfil adequado para isso e os resultados de seu governo não favorecem essa possibilidade.

Outra possibilidade é a que se abre para Aécio Neves do PSDB. A atuação de Campos, e agora a comoção provada pela sua morte em circunstâncias trágicas, abre um espaço novo para o discurso de oposição. Muitos segmentos da opinião pública – e em especial os que até agora não tinha candidaturas preferidas, como os mais jovens – vão estar colocados diante de uma nova situação e serão estimulados, pelas avaliações do papel inovador de Campos, a examinarem as possibilidades de novas alternativas de desenvolvimento da política; será mais fácil agora perceber que existem saídas para os nossos impasses.

É uma excelente oportunidade para Aécio Neves que, ademais, manteve uma atitude simpática e amigável com Campos desde o início da disputa eleitoral. Aécio, entretanto, terá de assumir de modo explícito um discurso ao mesmo tempo oposicionista e de profunda renovação da política brasileira, envolvendo atitudes e comportamentos, por um lado, e uma clara posição de combate à corrupção por outro. Alguns fatos envolvendo antigos líderes do seu partido, como Eduardo Azeredo, de Minas, não tornam a tarefa fácil, e a questão que se coloca é como Aécio será capaz de acenar para os mais de 70% dos eleitores que, segundo várias pesquisas, querem mudanças e querem profunda renovação da política brasileira.

Nesse terreno, a retórica não pode ser apenas a usual promessa de que tudo mudará sem apontar como; os eleitores estão cada vez mais exigindo que os políticos sejam claros, transparentes e específicos sobre como transformar a política brasileira. As manifestações de junho do ano passado – e inúmeras pesquisas acadêmicas, como as que tenho conduzido na USP sobre a desconfiança dos cidadãos das instituições políticas – deixaram isso claro, sem que os partidos e os seus líderes tenham sido capazes de dar respostas adequadas para o clamor das ruas. Aécio, entretanto, tem potencial para fazer isso, é um político jovem, fez um bom governo em Minas, foi bem avaliado, e a sua disposição de mirar-se no exemplo de Fernando Henrique Cardoso aponta nessa direção, mas ele precisará conquistar os corações e as mentes dos que ainda não estão com ele se quiser aproveitar as oportunidades que se abrem à sua frente. Mais do que promessas, são atitudes novas e a disposição de começar a mudar as coisas a partir da própria casa que poderão sensibilizar os eleitores mais críticos.

Em resumo, no quadro de crise de lideranças políticas que tem caracterizado a política brasileira dos últimos anos, a morte de Eduardo Campos representou um duro golpe para quem alimentava esperanças de mudança da política. Mas, ao mesmo tempo, o seu exemplo e a sua ousadia – algo evidenciado quando ele assumiu os riscos de deixar a cômoda aliança de que fazia parte junto ao PT e a Lula – deixam um legado interessante, positivo, inovador. Se essa leitura for feita pelos que ainda estão na disputa eleitoral deste ano a política brasileira poderá começar a mudar. Nesse cenário, no entanto, é fora de dúvida que quem tem mais chances de encarnar esse papel é o candidato de oposição; o desgaste do governo é grande e Dilma não dá sinais de que estará a vontade para disputar esse papel.

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