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Estratégia e tom crítico dão dianteira a Aécio

Bianca Pinto Lima

segunda-feira 12/05/14

A dianteira do senador Aécio Neves (PSDB-MG) em relação ao ex-governador Eduardo Campos (PSB-PE), registrada na pesquisa mais recente, do instituto Datafolha, não tem causa apenas na maior exposição televisiva do mineiro, mas também na linha crítica mais contundente adotada. É um dado importante, porque não reduz apenas a uma maior visibilidade o desafio de […]

A dianteira do senador Aécio Neves (PSDB-MG) em relação ao ex-governador Eduardo Campos (PSB-PE), registrada na pesquisa mais recente, do instituto Datafolha, não tem causa apenas na maior exposição televisiva do mineiro, mas também na linha crítica mais contundente adotada.

É um dado importante, porque não reduz apenas a uma maior visibilidade o desafio de Campos para reduzir a diferença em relação ao concorrente, mas também à percepção pública de um discurso mais crítico ao governo do que tem feito até agora.

Não tem faltado conteúdo crítico ao PSB, porém ele tem sido mais esparso e dividido  entre o candidato do partido e a vice, Marina Silva, algumas vezes exibindo diferenças de tom e de visão do processo – seja nos conteúdos ou nas prioridades.

Além disso, as críticas da dupla são intercaladas pela discussão pública das diferenças entre ambos, que refletem a dificuldades de unidade entre os partidos que representam – o PSB e a Rede.

Esse debate interno está refletido também na formação das alianças, com indiscutível efeito retardatário no ritmo de execução do roteiro mais objetivo da campanha.

O crescimento de Aécio nas pesquisas acentuou a dispersão: o alvo principal do PSB deixou de ser a presidente Dilma e passou a ser o concorrente , que deveria permanecer mais tempo nessa condição antes de receber o tratamento de adversário.

Aécio conseguiu cumprir um roteiro traçado ainda no ano passado, que começava pela construção da unidade interna no partido, até chegar à sua presidência, ganhando legitimidade para conduzir pessoalmente as alianças e acordos regionais.

Em seguida, sem interromper a costura política, cuidou de dar a partida na segunda etapa, a da busca por maior visibilidade, ganhando a cena como protagonista da CPI da Petrobrás, que colocou o governo na defensiva, pagando o custo eleitoral de evitar a investigação.

Pelo menos aparentemente, Campos seguiu outra rota e ainda parece atrelado às questões internas que envolvem seu partido e a Rede e com o foco nos chamados diálogos com segmentos sociais, uma etapa talvez mais apropriada na fase de campo da campanha formal.

Sua discrição no debate da CPI permanece, mesmo com o calor que tomou conta do Congresso. Certamente é uma postura determinada pela conveniência de não se indispor, além da conta, com o eleitorado petista que poderá vir a apoiá-lo numa eventual disputa de segundo turno com ou sem Dilma.

A unidade interna alcançada por Aécio ainda é distante no PSB com a Rede e, certamente, interfere na construção da narrativa crítica ao governo. Desde o rompante de Marina contra o agronegócio, sucedem-se os desencontros entre ela e Campos, sempre contornado por frases de efeito que remetem ao princípio programático que deve idealmente reger a aliança entre ambos.

Mais recentemente, Marina divergiu de Campos em relação à autonomia do Banco Central, algo que deveria merecer debate interno antes de qualquer manifestação pública de um e de outro. Na sequência, a entrevista da ex-senadora prevendo a derrota de Aécio, se for ao segundo turno, foi além do tom ideal.

Nos últimos dias, a vice de Campos tem se empenhado em questionar as alianças desenhadas pelo companheiro de chapa, a partir da estratégia que considera mais adequada à Rede, desconhecendo que seu partido ainda é futuro, o que torna abstrata qualquer proposta para as eleições deste ano, que contemple o interesse da legenda ainda em formação. A Rede parece priorizar a estratégia de fazer do PSB seu cavalo de Tróia sobre o melhor roteiro para a vitória.

Nesse contexto, perdeu o constrangimento de investir contra a aliança mais estratégica de Campos e Aécio, a que preserva ambos em seus estados – Pernambuco e Minas, respectivamente -, para defender o lançamento de um filiado da Rede reconhecidamente de pouco ou nenhum poder competitivo.

Da mesma forma vetou a aliança entre Campos e o PSDB paulista, apesar da historicidade que a fez consolidada muito antes do surgimento da aliança Rede/PSB. A contundência de Marina nas declarações de veto ao PSDB, começa a ficar maior que o tom de sua crítica ao PT.

Quando surpreenderam o meio político e o país com o anúncio de uma aliança, Campos e Marina concentraram as críticas do PT. Uma delas, que dissimulava a preocupação dos petistas com uma candidatura dissidente, de perfil à esquerda, apostava na precipitação da disputa entre os dois ex-governadores assim que o primeiro crescesse nas pesquisas.

Àquela época, a aposta do PT foi interpretada mais como desejo do que realidade provável, leitura retirada da ênfase com a qual Marina Silva, principalmente, lançou como objetivo central da aliança interromper o longo ciclo do PT no poder.

O discurso visava a garantir que as diferenças entre a Rede e o PSB se submeteriam a essa causa maior, conteúdo estendido por Aécio e Campos ao pacto de não agressão que o faziam concorrentes numa primeira etapa e adversários no segundo tempo, momentos que seriam determinados pela evolução das campanhas.

A passagem de um momento para outro seria precedida, naturalmente, de uma nova rodada de conversas para avaliar a conjuntura. Não foi o que aconteceu, com o PSB interrompendo unilateralmente a convivência amistosa, fazendo valer a previsão/desejo do PT.

É verdade que o desenho de polarização da campanha entre PSDB e PT ganhou nitidez pontual com o crescimento do primeiro nas pesquisas, mas a reação do PSB desconsiderou seu potencial de crescimento que ainda não deslanchou por circunstâncias que parecem mais vinculadas a erros estratégicos na condução da pré-campanha.

O PSB aposta possivelmente na avaliação de que a migração dos eleitores do PSDB para Campos, num eventual segundo turno entre ele e Dilma, é mais que certa, garantida, e que o mesmo não ocorrerá se o senador mineiro for o adversário da presidente, com relação aos votos dos petistas desencantados.

É raciocínio válido, mas desvinculado do timing  para a desconexão com Aécio antes do primeiro turno. A investida contra o PSDB parece precipitada e capaz de beneficiar nessa fase da campanha apenas o PT.