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Rompimento no Rio desidrata Dilma e PT

João Bosco Rabello

31 janeiro 2014 | 14:00

Não é das mais confortáveis a situação do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) no cenário eleitoral carioca. Causa fundamental do rompimento do seu partido com o governo do PMDB, sua candidatura à sucessão estadual sofre significativa oposição interna, sobretudo dos prefeitos do PT.

Não só pelo que afeta nas relações administrativas entre essas prefeituras e o governo, fomentador de obras e programas de repercussão eleitoral nos municípios, mas pelo impacto das demissões de servidores beneficiários da aliança que sofrem o efeito dominó das exonerações no primeiro escalão. São perto de mil, ao que se noticia.

Tudo isso seria parte do jogo se a postulação de Lindbergh fosse incontestável do ponto de vista eleitoral – o que não se confirma pelas pesquisas -, e o PMDB não estivesse convencido de que o desgaste político no Estado é restrito à figura do governador Sérgio Cabral e não respinga em seu vice, Luis Fernando Pezão, candidato natural à sua sucessão.

As posições dos candidatos oposicionistas, Anthony Garotinho (PR) e do bispo Marcelo Crivela (PRB) nas pesquisas, expressivas e estáveis, não recomendam uma ruptura. A aliança que sustentou até aqui o governo atual, se beneficiaria da divisão da oposição, se não estivesse, ela também, esfacelando.

Para o governo federal, que não conseguiu evitar o desenlace, o cenário preocupa. As alianças regionais têm certa autonomia em relação à nacional, mas casos como o do Rio produzem efeitos colaterais inevitáveis no desempenho da candidata Dilma Rousseff no Estado, de onde precisa sair com uma votação importante.

Não terá, para isso, a máquina peemedebista funcionando a seu favor. Nem contra: o PMDB vai simplesmente cuidar do seu quintal carioca, mas o foco do trabalho de sua estrutura partidária não estará na presidente, o que já é uma subtração na conta geral dos votos para a sua reeleição.

Os atores regionais do processo dependem do governo estadual para sustentar sua performance eleitoral também. Do que é reveladora a declaração do prefeito de Maricá, Carlos Miranda ao O Globo: “A situação é complicada. Sou do PT e meu vice é do PMDB. Dependo do governo do Estado para ter investimentos”, diz.

Apesar das exonerações que começam a ocorrer hoje, há quem ainda não considere tarde demais para repactuar a aliança entre os dois partidos, cuja ruptura reduz o tempo de televisão para a campanha do PT.

Sem tempo suficiente, nos padrões impostos pelo marketing, Lindbergh fica mais vulnerável internamente, porque aumenta seu risco eleitoral e, por consequência, impõe uma avaliação mais detida da relação custo/benefício de sua candidatura.

A chave sempre esteve nas mãos do ex-presidente Lula, que aparentemente não aplicou toda a força de sua liderança para demover Lindbergh. Não se sabe se o fará ainda, mas a julgar pela obstinação do senador, se o fizer não será sem dor.

De toda a forma, não se faz omelete sem quebrar ovos, diz velho jargão da política, aplicável agora ao cenário eleitoral carioca.

Lindbergh tem razão quando relativiza o poder da máquina peemedebista no Estado, em comparação com o grau de insatisfação da população, que este ano tende a valorizar o voto de protesto.

“Não é só a máquina, o dinheiro, os prefeitos. Eles esquecem que o povo está sofrendo nos trens, nos hospitais , no desabastecimento de água”, registra.

Mas o diagnóstico não se limita aos eleitores do Rio e, no caso, o discurso não soma para o senador. Ao contrário, subtrai, porque as críticas cabem ao governo do qual fez parte seu partido até agora, não podendo dele se omitir – nem para o bem e nem para o mal.

Se beneficia dessa realidade todo aquele que para ela não contribuiu, o que exclui todos os pretendentes conhecidos, até aqui, à sucessão de Cabral. O que também não significa que uma cara nova, por si só, seja garantia de vitória antecipada. Mas uma nova composição, ainda que com rostos conhecidos, pode ganhar impulso.

Nesse contexto, a candidatura que emergir com apoio do governador Eduardo Campos e da ex-senadora Marina Silva, essencialmente pelo peso desta última no cenário eleitoral, tem grande chance no Estado.