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Reforma ministerial – é torcer para não piorar

João Bosco Rabello

13 novembro 2013 | 15:30

Vem aí a reforma ministerial, mais uma daquelas que se encaixam na definição clássica da mudança que mantém tudo como está. A operação tem motivação meramente eleitoral não indo à causa que realmente deveria produzi-la – a de tentar imprimir alguma eficiência à máquina administrativa, cujo desempenho cuidou de desmoralizar a estratégia de cunhar uma imagem de gestora para a presidente Dilma Rousseff.

A reforma, ao que tudo indica, funcionará como mecanismo compensatório para os preteridos nas alianças regionais, em primeiro lugar, e para equilibrar politicamente as forças que compõem a aliança governista , principalmente PT e PMDB, ambos avaliando seu quinhão na estrutura como inferior ao que merecem. Com a vaga aberta pelo PSB, a temperatura da disputa aumentou.

O que torna a versão já descartada de que Dilma aproveitaria a oportunidade para montar um ministério técnico, mero diversionismo do governo, somente absorvido por almas ingênuas, de boa fé proporcional ao distanciamento que mantêm da política. Que, de resto, explica a desenvoltura com que agem os governos e os legislativos à margem do interesse público. Algo que não se resolve só com reforma política, mas também de costumes – do distinto público e de seus representantes.

Aparentemente o que cobraram os manifestantes que foram às ruas em junho e a ela voltaram mais uma ou duas vezes, antes de serem expulsos pelo movimento fascista black blocs. Desde então, governo e Congresso rascunharam às pressas uma agenda positiva, estritamente discursiva, prometendo soluções para todos os problemas. Um tsunami populista, cujo epicentro mantém os sinais de que o balanço pode voltar no curso da campanha.

O país não conhece – e provavelmente o governo também não – os méritos do empresário Josué Gomes da Silva para ocupar o ministério do Desenvolvimento, como vem sendo especulado, mas como o critério é o de lembrar seu vínculo com o ex-vice-presidente de Lula, o também empresário José Alencar, poderia ser qualquer outra Pasta. A solução já passou pela sua filiação ao PMDB, o que garante mais uma cota no ministério ao partido.

Melhor seria, então, fazer de Josué candidato a alguma coisa, pois sua eleição teoricamente estaria garantida, dada a popularidade do pai. E até poderia puxar votos, a exemplo de Tiririca, ressalvadas as proporções numéricas e as “aptidões” do humorista para a política. Não fará diferença, de qualquer forma, porque o baixo desempenho do ministério é a soma do despreparo da maioria de seus titulares com o modelo centralizador da presidente da República.

Também tanto faz, porque a campanha cuidará de esconder a nova formação, na qual, o único ganho à vista, consideradas as especulações, seria a ida do atual ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, para o Planejamento, cadeira que já ocupou com eficiência. Mesmo assim, abriria vaga nas Comunicações, objeto de desejo do PT que insiste na censura à mídia, vestida com o conceito andrógino de regulação.

Também é uma oportunidade para descartar ministros-problema, que além de questionados na sua competência, conseguiram produzir algum tipo de escândalo, talvez achando que a matéria anda escassa no país. São os casos da ministra da Articulação, Ideli Salvati (PT-SC), flagrada em helicóptero do Samu, e do ministro do Trabalho, Manoel Dias (PDT), cuja resposta ao desvio de R$ 400 milhões de convênios em sua Pasta foi a de que “o ministério caminha para a transparência total”.

Foi o que disse à Comissão de Trabalho da Câmara, dias após ameaçar contar tudo o que sabe sobre o que se passa no governo, bastidor que preferiu ignorar depois de tranquilizado quanto à sua permanência no cargo. Inútil, a Pasta bem poderia ser extinta que não se perceberia, mas será mantida para abrigar o aliado da vez.

Como não há risco de melhorar, a reforma será inofensiva se não piorar o desempenho do governo, proeza bastante difícil, mas não impossível. Há, sim o que piorar, para além da estagnação da infraestrutura, saúde e segurança pública, mas na esfera econômica.

É algo a se considerar diante da constatação que a gestão da presidente Dilma, desde o meio do ano é orientada pela reeleição – e assim continuará, até com mais intensidade. Uma imposição eleitoral que reprime as medidas necessárias à correção de rumos, acumulando para 2015 – e para quem vier -, os ajustes inevitáveis para sustar os efeitos fiscais da eleição de 2010 e, agora, de 2014.