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Prova de fogo

João Bosco Rabello

12 agosto 2014 | 16:17

Para a maioria dos analistas, mesmo de fora do PSDB, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) saiu-se bem na entrevista ao Jornal Nacional, a primeira da série iniciada com os candidatos à presidência da República.

Argumentam que o candidato enfrentou as questões – e a contundência excessiva – da dupla de entrevistadores, sem perder a calma e sem hesitações. Mesmo com relação à polêmica construção do aeroporto de Cláudio, foi assertivo, mostrando convicção quanto à obra.

A insistência do apresentador William Bonner no tema roubou precioso tempo para que o candidato pudesse discorrer sobre os demais assuntos em pauta. E com um vício recorrente – o de considerar que o terreno do aeroporto é particular.

Não é. É terra desapropriada, condição básica para que tenha sido assinado o convênio com o governo federal há três anos. Insistir em questões que têm a falsa premissa quanto à propriedade, como a do constrangimento de utilizar a pista, não vale o tempo desperdiçado.

A pressão para que Aécio anunciasse medidas corretivas na economia, naturalmente impopulares, é legítima e pró-eleitor. Nesse quesito, Aécio conseguiu contornar a armadilha implícita na questão, dizendo que fará o necessário, mas que precisa saber o tamanho do “buraco” produzido pelo atual governo que concorre à reeleição.

A resposta sobre os malfeitos do partido tucano, como o chamado “mensalão mineiro”, talvez tenha sido a melhor em toda a entrevista. Ao centrar na postura do partido em eventual condenação de seus pares, Aécio trouxe o tema que tanto atingiu o PT para o ponto certo.

Não tratou de defender previamente o ex-deputado Eduardo Azeredo (MG) e nem de prejulgar. Disse simplesmente que se condenado não terá do partido tratamento de herói, como ainda faz o PT com relação aos seus dirigentes presos por condenação do Supremo Tribunal Federal.

Poderia ter dito mais a respeito quando o entrevistador perguntou qual a diferença entre os dois casos. É grande, no volume, desfaçatez em defendê-lo e na motivação – a de alimentar um projeto de permanência no poder à base de desvios de recursos públicos.

O candidato do PSDB teria ido além se também desenvolvesse mais a questão do gasto público como matriz da desordem econômica, a começar pela inflação. As manobras do governo na economia não têm por motivação apenas corrigir erros, mas de sustentar um padrão de máquina pública, este, sim, Fifa.

Lida, a entrevista de Aécio é bastante consistente, o que significa que seu conteúdo é melhor que a impressão de acuamento que o padrão das entrevistas do Jornal Nacional, desde 2010, produz. Pode ser válido para transmitir ao público isenção e o objetivo de não permitir ao entrevistado tangenciar temas importantes.

A entrevista não pode correr o risco de se transformar em palanque para que o entrevistado faça o discurso de sua conveniência, mas também não pode sacrificar o tempo de 15 minutos, mantendo um mesmo tema durante um terço dele.

Certamente, o padrão será o mesmo aplicado aos demais candidatos, mas se não for dosado pode contribuir para que o conteúdo das campanhas fique na troca de acusações sobre que partido lidera a corrupção. E não é esse o melhor caminho para dar alguma qualidade ao debate.

De toda a forma, é uma prova de fogo para todos os candidatos, pois precisarão administrar bem o tempo de suas respostas, a começar por dar-lhes consistência e objetividade, não perder a calma, manter a simpatia e ser competente – tarefa áspera para qualquer um.