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Programáticos e pragmáticos

João Bosco Rabello

19 agosto 2014 | 16:30

A menos de 24 horas da reunião da Executiva Nacional do PSB que deverá confirmar Marina Silva como candidata do partido à sucessão presidencial, as expectativas passam a girar em torno da adaptação da ex-senadora à nova condição, que encerra desafios difíceis e decisivos.

A sua confirmação informal esvaziou a ansiedade pela definição maior antes dos rituais de despedida do ex-governador Eduardo Campos, matando no nascedouro dúvidas que tinham potencial para estender a discussão sobre a legitimidade de sua escolha.

O passo principal, portanto, está dado, mas restam importantes aspectos da nova configuração da coligação que tinha em Campos uma liderança agregadora, capaz de por a serviço da unidade interna a indiscutível habilidade conciliadora que marcava a sua personalidade.

O mais difícil será a convivência de PSB e Rede, agora que a supremacia na chapa presidencial foi invertida, o que é inquestionável, em que pese a fragilidade da Rede como agremiação ainda informal à espera de uma nova rodada judicial para obtenção de seu registro definitivo.

Este, não é como aparenta a solução definitiva para funcionamento da nova legenda. Ao contrário do que vigorou para a criação do PSD, não mais novos partidos nascerão com tempo de televisão e fundo partidário, o que recomendará uma convivência mais extensa do que se supõe entre as duas legendas, abrigadas numa só.

Além disso, a dinâmica de um governo, em caso de vitória de Marina, adia necessariamente planos prévios de separação. Não só Marina terá de absorver a linha socialista de operação política, como o partido sofrerá uma renovação compulsória de sua visão em aspectos dogmáticos para a Rede Sustentabilidade.

É nessa simbiose em que se aposta pouco, dada a dificuldade de concessão pela Rede de pontos conceituais que representam a própria razão de ser do embrionário partido político. Embora conceitualmente sólidas, posições quanto a formas alternativas de energia, que se opõe às hidrelétricas e à opção nuclear, por exemplo, demandam tempo para se consolidarem como eixo desenvolvimentista.

As mesmas razões opõem a Rede e o agronegócio, outro segmento econômico vital para o país que esbarra na política ambientalista pregada por Marina – e isso não é algo no plano teórico. São visões antagônicas e radicalizadas que podem não justificar a imagem antidesenvolvimentista que esses setores procuram pregar na ex-senadora, mas que explicam as animosidades de parte a parte.

É de se imaginar que Marina não seria uma vice decorativa de Campos. A própria intenção de filiar-se à Rede, mesmo em caso de vitória eleitoral, aponta para um presidente e uma vice em conflito permanente, ainda que se possa vislumbrá-lo de forma positiva. O presidente seria do PSB e a vice, da Rede, numa aliança sem base parlamentar sólida.

Com Campos seria possível enxergar uma ação política que suprisse o governo hipotético de ambos desse apoio parlamentar a partir de alianças que, por mais que buscassem a “nova política”, ainda teriam, por bom tempo, as regras da “velha”.

Marina eleita, o cenário é o mesmo, sem Campos a liderar essa costura política. E aí reside o primeiro e maior desafio da ex-senadora, de conduzir-se de forma a equilibrar a transição a que se propõe entre um ciclo político de métodos desgastados e rejeitados pela sociedade e o que se inicia de forma compulsória para os bolsões resistentes às mudanças.

Entre a reunião de amanhã da Executiva do PSB e o futuro da coligação, dois documentos sintetizarão a pauta que os desafia: um da Rede, outro do PSB, que tentam dar significado à classificação de programática que Eduardo e Marina aplicaram à aliança. Esta, nasceu pragmática e o programa de governo em fase de conclusão quando o acidente levou o ex-governador, é que dará o tom de organicidade ainda desconhecido fora das fronteiras da coligação.

São essas dificuldades, bastante acentuadas pelas diferenças entre PSB e Rede, que emprestam ceticismo ao mundo político quanto à consecução dos propósitos de Campos e Marina, sem mais a presença do primeiro. Será preciso bastante pragmatismo para viabilizar a aliança programática.

E desse ceticismo nasce a orientação de campanha que será adotada pelo PSDB e pelo governo, de centrar na dificuldade de gestão de Marina a sua principal desvantagem – junto e para o eleitor. O que parece menos legítimo – ou eficiente – no caso da presidente Dilma Rousseff, dados os resultados de seu governo, que a alcançam candidata à reeleição em recessão econômica.