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Petrobrás, ativo eleitoral transferido à oposição

segunda-feira 24/03/14

O episódio da compra da refinaria de Pasadena é apenas o mais vistoso a integrar uma série gradual de ações do governo desastrosas para a Petrobrás, transferindo à oposição um ativo eleitoral que, em algum momento, pareceu consolidado para o PT. Além da refinaria do Texas há empreendimentos diversos que, na melhor hipótese, configuram um […]

O episódio da compra da refinaria de Pasadena é apenas o mais vistoso a integrar uma série gradual de ações do governo desastrosas para a Petrobrás, transferindo à oposição um ativo eleitoral que, em algum momento, pareceu consolidado para o PT.

Além da refinaria do Texas há empreendimentos diversos que, na melhor hipótese, configuram um mau negócio. A refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco,  de empreendimento símbolo da política externa bolivariana de Lula, consolidou-se como um calote da Venezuela de U$ 18 bilhões.

Outra, no Japão, na casa dos U$ 100 milhões, também é de validade comercial suspeita, sem falar em projetos da empresa por estados brasileiros que foram anunciados e dos quais não se tem notícia. O aval da presidente Dilma Rousseff está em todos esses empreendimentos, assim como o de Lula, presidente na ocasião de suas aprovações.

Das páginas de economia a Petrobrás passou para as de polícia, com a denúncia de suborno de funcionários por empresa da Holanda e, agora, com a operação lava-jato, da Polícia Federal, que encontra o ex-diretor Paulo Roberto Costa como elo da empresa com quadrilha de lavagem de dinheiro – ele que estava à frente da operação de Pasadena, e que no comando da área de abastecimento da Petrobrás, frequentou a mesa de reuniões do presidente da República, então, Lula.

A crise de energia, cada vez mais difícil ao governo dissimular, tem origem em gestos populistas que representaram uma intervenção do Planalto na Petrobrás, impondo a governos estaduais prejuízo com a redução da conta de luz, que resulta hoje num rombo de R$ 20 bilhões a ser repassado ao consumidor em forma de aumento de tarifa e de impostos.

Como se vê não é pouco para desfazer a imagem de boa gestora que o marketing oficial tenta colar na presidente Dilma Rousseff, ao arrepio dos fatos. O governo tenta fazer da Petrobrás uma bandeira eleitoral desde o governo Lula, mas chega ao décimo ano com as ações da empresa valendo metade em relação ao início da gestão petista.

Uma CPI que investigaria operações comerciais conduzidas pela área internacional da Petrobrás, tem potencial para abalar seriamente o governo Dilma e comprometer objetivamente seu projeto de reeleição.

Sem CPI, mas com investigação por uma comissão parlamentar já aprovada, a profundidade da apuração será menor, reduzindo a extensão de sua consequência jurídica, mas mantendo o alto desgaste político.

Base do discurso de ataque ao PSDB em eleições passadas, usada como símbolo da privatização tucana, por sua vez traduzida como desapropriação de patrimônio nacional, a empresa hoje está em processo de sucateamento, o que inverte sua serventia eleitoral.

Para a oposição é preciso sustentar a cruzada pela CPI, ainda que acredite na sua improbabilidade. O recuo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que chegou a manifestar-se contra sua instalação, deve ter por base o convencimento a que foi levado de que ao governo cabe o desgaste de impedir a investigação.

Não é hora de boas maneiras, deve ter sido dito ao ex-presidente pelos seus pares, pois o cenário da Petrobrás indica  mais que uma coleção de erros, um conjunto de ações suspeitas que comprometem sua diretoria e conselheiros, no mínimo no plano da competência.

Portanto, o governo é que terá de se empenhar para conter politicamente as investigações, cuja legitimidade parece plenamente atestada pelas circunstâncias.

Afinal, foi a própria presidente Dilma quem atribuiu à diretoria da Petrobrás a omissão – deliberada ou não – que a induziu a aprovar no passado o que no presente tornou-se  suspeito.