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O outro medo (real) do PT

João Bosco Rabello

14 maio 2014 | 15:29

A necessidade de desconstruir o discurso da oposição em relação à economia, mostrando-o como um retrocesso social, impôs ao governo o ônus de aprofundar o fosso que o separa do mercado, consolidando a expectativa de que um eventual êxito na reeleição representará o agravamento da atual política intervencionista.

O discurso da presidente Dilma Rousseff, de seu antecessor, Lula, e, agora, do ministro da Casa Civil, Aloísio Mercadante (Folha de S.Paulo de hoje), revelam sintonia e sincronia indicadores de que a mensagem eleitoral prevalece como versão de momento, mascarando a realidade do ajuste inevitável em 2015.

O conteúdo dos três está resumido eleitoralmente na propaganda do PT que foi ao ar ontem nos canais de televisão aberta, reproduzindo estratégia já utilizada por candidatos em diversas eleições, de incutir no eleitor o medo de reversão de conquistas sociais, o que equivale a acusar os adversários de revogá-los se eleitos.

Na prática, a sintonia dos discursos é quebrada pelo próprio governo quando a presidente da Petrobrás, Graça Foster, anuncia o aumento da gasolina, represado às últimas consequências, desmentindo a tese insustentável do ministro Mercadante que traduz controle de preço artificial por “administração” em favor da população.

O medo que o PT tenta vender com sua propaganda partidária, no entanto, é estratégia de risco, própria das aflições políticas que se orientam justamente pelo temor da perda. O medo que semeia é o mesmo que sente e passa a orientar as ações de marketing do partido, à falta de perspectivas concretas para oferecer diante das demandas para as quais não existem respostas rápidas como convém em período eleitoral.

Para um partido que impôs ao contribuinte um aparelhamento da estrutura pública em escala inédita, uma eventual derrota do projeto de reeleição representará também a porta de saída para mais de 20 mil ocupantes de cargos de confiança só no governo federal, nomeados por critério político, o que os torna, em grande parte, insuficientes para as funções que exercem.

A conta aumenta fora do organograma dos cargos de confiança, em levantamento que ainda precisa ser feito com precisão. O fim da meritocracia responde pelos desmandos e malfeitos levantados por investigações da Polícia Federal, mas também pelo atraso e desorganização nos projetos de infraestrutura, inclusive os de caráter mais social, que o ministro Gilberto Carvalho admite como “frustrante”.

Uma das frases do programa partidário do PT pode, nesse contexto, ser aplicada a essa imensa legião de apadrinhados que experimentou uma ascensão profissional que, por mérito, não alcançaria. “Nosso emprego de hoje não pode voltar a ser o desemprego de ontem”, ofertada ao eleitor, serve também ao militante, cujo temor com o risco eleitoral anda, lado a lado, com a perspectiva da perda pessoal de status profissional.

Para esse contingente, a eventual derrota eleitoral diz respeito à sobrevivência no status novo galgado a partir da ascensão do partido ao poder, que estabeleceu a filiação e a fidelidade  partidárias como critério para a ocupação de cargos públicos, muitos dos quais estratégicos ao Estado.

“Não podemos deixar que os fantasmas do passado voltem e levem tudo o que conseguimos”,diz ainda a propaganda. O problema é que a demanda da sociedade hoje se refere ao que não foi conseguido – um vasto rol de ações que poderiam ter atenuado a complexa questão da mobilidade urbana, das más condições da Saúde, Educação e Segurança, que resumem o mau humor e o desencanto do eleitorado.

Especialmente se os sete anos que antecederam a Copa do Mundo, desde a conquista da condição de país-sede, tivessem sido usados para preparar o país para o evento, deixando, aí, sim um legado à população. O padrão Fifa reclamado para o país poderia preceder o evento esportivo, se a aversão do governo ao lucro e a falta de planejamento não o isolasse dos investidores.

Na vida real, fora da propaganda partidária, o PT continua errático. A tentativa do ministro Mercadante de transformar represamento de preços em doutrina capitalista, instrumento adequado ao controle da inflação, é a institucionalização de um discurso eleitoral que termina no dia 1º de outubro, para mostrar seu resultado recessivo em 2015.

A reeleição de Dilma, nesse contexto, a manterá de costas para o mercado num eventual segundo mandato em que a reaproximação com as forças produtivas do país e, por extensão, com os investidores, significará a negação do discurso de campanha.

Mas essa hipótese não é considerada pelo mundo capitalista: a reafirmação do discurso intervencionista na campanha consolida a desconfiança com que sempre foi olhado o governo pelos agentes econômicos, mesmo nas fases em que a presidente se empenhou em reverter esse quadro.

Seu discurso jamais traiu a convicção nas próprias teses, o que explica a resistência do mercado em absorvê-lo como dado de realidade. Foi uma questão de tempo para que a conveniência eleitoral o mostrasse como mera peça retórica para reconquistar investimentos.