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AéCIO NEVES

Não existe oposição “generosa”, nem “má”: existe oposição

João Bosco Rabello

08 Novembro 2010 | 08h00

Não foi bem digerida no PSDB e no DEM a proposta do governador Aécio Neves de uma oposição “generosa” ao futuro governo Dilma. O adjetivo poderia ter ficado de fora da declaração do mineiro, sobretudo porque foi simultânea ao lançamento, pelo PSB ,de seu nome para presidir o Senado.

A leitura foi a de que Aécio traça seu próprio projeto de chegar ao posto numa aliança com partidos governistas, à revelia de seus aliados.  

De suas declarações decorrem as manifestações em sentido contrário de oposicionistas como o governador de São Paulo, Alberto Goldman, e do próprio senador eleito, Itamar Franco. Ambos corrigem Aécio: oposição é oposição – consciente e ativa, mas sem meios termos.

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Para o governador de SP, Alberto Goldman, ‘oposição é para fazer oposição’

Itamar, inclusive, defende que ela comece no dia seguinte à posse de Dilma. “Até a posse, tudo são flores”, diz.

De fato, o eleitor já demonstrou não apreciar posições pouco claras ou comportamento dúbio, como ficou patente na campanha de José Serra, criticado por não admitir interferência no trabalho de seu marqueteiro Luis Gonzales.

Nada disso significa oposição irresponsável ou do “quanto pior, melhor”, como a exercida pelo PT durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, quando combateu o plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e outras medidas, de resto responsáveis pela estabilidade da qual se beneficiou para consolidar um cenário econômico favorável ao País.

O que Aécio, apesar do escorregão, não deixou de assinalar. O rescaldo da derrota já parece estar reorientando o pensamento dos oposicionistas que, mais conscientes da votação obtida – 44 milhões de votos, dez governadores de estados que somam 95 milhões de brasileiros, ou 52% da população -, começam a avaliar o resultado pelo lado positivo – o da representatividade obtida.

A avaliação da derrota elegeu como  causa principal a desarticulação da oposição, majoritariamente representada pelo PSDB, que entrou na disputa dividido e a três meses da abertura oficial da campanha.

Nos anos anteriores de governo Lula não exerceu uma oposição permanente, fundada em bases sólidas, programáticas e definidoras de um norte político que propiciasse ao eleitor mais que a repetição de um duelo ideológico entre dois partidos que brigam pelo monopólio de uma esquerda de conceito obsoleto.

Prevaleceu assim, por uma questão lógica, a chamada vida real, ou seja, o voto pela continuidade de um bem estar ditado pela economia positiva, cujo mérito o PT nega ao PSDB, mantendo o adversário numa discussão enfadonha para o cidadão sobre quem começou o que de bom ele desfruta.

Ao lado da inconveniente supremacia do marketing na campanha, em detrimento da politização dos temas, essas as lições para a oposição extrair da derrota que, por não ter sido acachapante como pregava a aliança governista, exibe um Brasil dividido que lhe deu, apesar de toda a sua desarticulação,  46% dos votos apurados.

Não é pouco e deve orientar a reconstrução das bases dessa oposição, tornando-a orgânica, mais bem distribuída em todo o país e consistente na sua ação congressual.

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