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Memória e futuro

João Bosco Rabello

sexta-feira 04/07/14

Para garantir sua eleição, o ex-presidente Lula assinou o compromisso público conhecido como Carta aos Brasileiros, na qual se comprometia a não alterar as reformas de seu antecessor que deram ao país a estabilidade econômica, tentada em planos anteriores. O país que elegera Fernando Henrique Cardoso duas vezes, queria mudanças, mas sem riscos, como experimentalismos […]

Para garantir sua eleição, o ex-presidente Lula assinou o compromisso público conhecido como Carta aos Brasileiros, na qual se comprometia a não alterar as reformas de seu antecessor que deram ao país a estabilidade econômica, tentada em planos anteriores.

O país que elegera Fernando Henrique Cardoso duas vezes, queria mudanças, mas sem riscos, como experimentalismos que revivessem a inflação. Os mercados sinalizaram seu temor com a eleição do PT, retirando investimentos e agravando um quadro econômico atingido pela crise asiática.

O compromisso de Lula deu certo, não apenas pela sua formalização, mas pela prática que o referendou. Com um presidente do Banco Central acreditado nos mercados interno e externo e um ministro da Fazenda que funcionou como um obstáculo às pressões do PT pelo descumprimento da Carta, o governo Lula significou, no plano econômico, uma continuidade.

Da mesma forma, seu segundo mandato manteve o clima de confiança entre governo e mercado, com investimentos e ampliação do assistencialismo social. Lula trocou o ministro da Fazenda, por imposição de um escândalo que o afetou, mas predominou no rumo econômico de seu governo a linha do BC, ditada por Henrique Meirelles.

O ministro da Fazenda escolhido por Lula para suceder Antônio Palocci, foi o mesmo Guido Mantega que está no cargo até hoje, mas nem por isso, a gestão econômica foi alterada substancialmente, ou seja, nos seus fundamentos, o que permitiu ao ex-presidente deixar o cargo com a economia sustentando uma popularidade de 80%.

Meirelles e Palocci atuaram em dobradinha, mas naquela ocasião, entre os críticos da política econômica que pressionavam pela sua revogação, estava a então ministra-chefe do Gabinete Civil, Dilma Rousseff, que publicamente classificou o modelo de “rudimentar”.

Dilma recebeu o governo com a economia pior do que já fora na fase de seu antecessor, mas ainda assim, sólida e confiável aos investidores. Parte da piora se deveu aos custos de sua eleição. Desconhecida, um “poste” no linguajar eleitoral, Lula não mediu limites para elegê-la, embora deixasse a conta para que ela equacionasse.

Herdou também o ministro da Fazenda, que manteve no cargo. Mas a gestão econômica passou a ser sua, o que dificultou a mudança do ministro quando as coisas começaram a dar errado. Instada por Lula a trocá-lo, Dilma recusou a sugestão e manteve a tensão entre governo e mercado.

A ideia era sinalizar aos empresários e investidores que osa fundamentos do Plano Real não seriam mais alterados, que estava finda a fase de experimentalismo de seu governo, mas a presidente não quis assim. Fez dos discursos a única concessão ao mundo empreendedor: neles, mostrava-se mais ortodoxa do que na prática, mas sem passar um pingo de confiança.

Sua recusa em mudar o ministro da Fazenda foi interpretada corretamente como uma sinalização clara de que a ministra da economia era ela própria. Sacrificar o ministro seria inútil, já que dele não emana a diretriz de governo para o setor.

A permanência de Mantega agravou a desconfiança do mercado – e até a sua desistência do governo – , menos pelas convicções do ministro e mais pela certeza de que sua remoção não alteraria nada. Se a política é da presidente, o substituto não teria força para se impor. Se tivesse, como Henrique Meirelles, por exemplo, conforme sugerido por Lula, ela teria de abdicar do comando econômico, hipótese mais que remota, fictícia.

Sem que as pontes tenham sido refeitas com o mercado, os investimentos permanecem longe , a estagnação econômica se agrava e resta à presidente conversar com o mercado após as eleições de outubro. Tarde demais, reconduzida ou não ao cargo, que deixará apenas em janeiro em caso de derrota.

A memória vem a propósito de lamentações de setores do PT e da base aliada que ainda consideram que a sugestão de Lula viera a tempo de reverter o clima de desconfiança em prazo conciliável com a estratégia de criar um clima otimista com efeito nas eleições.

Henrique Meirelles continua na praça, como dizem alguns, não foi aproveitado em nenhum contexto eleitoral e, agora, é mencionado como futuro secretário de Fazenda de São Paulo em eventual governo do PMDB, em caso de vitória do presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

Meirelles não foi, de fato, lançado a nenhum cargo eletivo por nenhum dos partidos que namoraram sua candidatura. Mas todos – PSD,PSDB e PT – se valeram de seu perfil para acenar ao mercado com o retorno dos bons tempos da economia.

Outra não era a intenção de Lula ao pressionar Dilma para que o trouxesse de volta ao governo como forma de resgatar a confiança do mercado, freando o processo de corrosão das relações entre este e o seu governo.

Mas, para isso, Dilma teria de abdicar de suas convicções na gestão econômica, o que jamais faria, conhecido seu perfil assertivo. Por isso, a equação não fecharia e, em consequência, em nenhum momento o mercado deixou de manter-se cético quanto ao êxito do governo.

 Na hipótese de reeleição da presidente Dilma, os atores políticos e econômicos se perguntam o que autorizaria a perspectiva otimista de uma mudança nas relações entre governo e entes econômicos, se o comando da economia continuará centralizado na chefe de governo.

A discussão econômica na campanha, portanto, não passa apenas pelas propostas da oposição de mudanças e resgate dos fundamentos do Plano Real, como até aqui tem ocorrido.

Também é preciso que a candidata do governo, eixo natural da campanha, apresente não apenas suas idéias, já conhecidas inclusive nos seus resultados, mas o que muda – se muda – em um eventual segundo mandato.   Se será mais do mesmo, ou deve-se esperar mudanças.