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Lula volta, mas articulador político

João Bosco Rabello

06 março 2014 | 15:30

O movimento “Volta Lula”, com origem no PT, ganha agora um contorno mais realista ao alterar o objetivo original de fazer do ex-presidente novamente o candidato do partido à Presidência da República, para investi-lo na função de articulador político do governo em ano de campanha eleitoral.

Nessa configuração, tem o apoio ampliado pelo coro do PMDB, estressado pelo conflito com a presidente Dilma Rousseff, em quem vê submissão quase absoluta aos interesses do PT, diagnóstico agravado pela circunstância eleitoral.

Do ponto de vista do PMDB, Lula como articulador não se traduz ainda em movimento – é mais um desejo de que as relações melhorem, com base na convivência que tiveram com o PT durante seu governo.

Na prática, Lula jamais deixou de ser o articulador do PT, mas o distanciamento da rotina de governo o manteve restrito à estratégia interna que privilegia a pauta do partido. Sua reunião ontem com a presidente e a cúpula da campanha no Palácio Alvorada trouxe a imagem de uma atuação pessoal a partir do governo – e dentro dele.

O conteúdo vazado desse e de outros encontros recentes do ex-presidente com interlocutores diversos indica que ele tem muitas ressalvas à gestão política exercida pela presidente, especialmente quanto à sua falta de habilidade na condução das negociações não só com o PMDB, mas também com o empresariado.

A crítica do ex-presidente sugere aos aliados insatisfeitos que ele conduziria de forma mais equilibrada as negociações e que mais fácil e indicado seria que assumisse a articulação política ao invés de tentar fazê-lo candidato outra vez. Essa hipótese, com origem na insatisfação com o tratamento do governo, seria um remédio mais forte que o necessário – e de remota possibilidade de operação.

O cenário remete ao momento seguinte à eleição de Dilma, antes ainda de sua posse, em que o ex-ministro José Dirceu declarou em reunião no sindicato dos Petroleiros, sem se saber ouvido por jornalistas, que o governo Dilma seria o verdadeiro governo do PT.

Provavelmente Dirceu se referia à diferença entre a liderança de Lula sobre o partido e a que Dilma poderia ter, uma vez no cargo. A indiscutível liderança do ex-presidente no PT o fez mais um amortecedor a reduzir o ímpeto hegemônico da legenda do que um obediente filiado a atender aleatoriamente às demandas, mesmo as ideológicas.

Do que é ilustração fiel sua declaração ao Estadão à época de seu governo, quando provocado sobre propostas autoritárias recorrentes em conferências do PT, como o controle da imprensa. Para essa proposta específica, e outras do gênero, disse: “Vocês não deveriam se preocupar com isso, as conferências são usinas de utopias, o que se passa lá é do partido, não do governo”.

Essa distinção, dada como garantia, suscitou a réplica elementar. “Mas e quando o Sr, não estiver mais aqui”? “Eu estarei em espírito”, disse jocosamente.

Dirceu não concedia a Dilma esse mesmo poder de administrar o avanço do PT sobre seu governo, pela falta de historicidade no partido somada ao seu perfil mais gestor que político. Seria, assim, facilmente engolida pela legenda, que ditaria os rumos de seu governo.

Não foi bem assim. Dilma se impôs suportada pelos altos índices de aprovação pessoal e de governo, dos quais desfrutou até os protestos de rua de junho do ano passado, quando despencou tão vertiginosamente que se julgou impossível sua recuperação.

Esta veio, afinal, mas em patamares muito inferiores aos já experimentados, não sendo hoje garantia eleitoral. Ao contrário, entre 43 e 45%, parece ter chegado ao teto desse resgate, em índice de risco para quem tenta a reeleição.

Esse declínio, que abala a segurança da reeleição, revigorou o PT e impôs a Dilma um comportamento mais concessivo ao partido, que teve na campanha o pretexto para impor-se no processo, afetando as relações da presidente com sua base.

Foi o que bastou para que o PMDB iniciasse a reação, cuja intensidade é proporcional à ameaça percebida: a hegemonia do PT na estrutura de governo dá instrumentos para enfraquecer o PMDB regionalmente, reduzindo-lhe territórios e ampliando os seus próprios.

A profecia de Dirceu se materializa no último ano do mandato de Dilma, assim como a do ex-presidente Lula – que está no Planalto outra vez, não em espírito, como anunciou, porém mais encarnado do que nunca.