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Justiça devolve seriedade à investigação na Petrobrás

João Bosco Rabello

12 junho 2014 | 16:00

A prisão de Paulo Roberto Costa, um dia após depor na CPI Mista da Petrobrás, confirma que a ação investigativa conduzida pelo juiz Sérgio Moro, do Paraná, mantém-se como polo de onde podem surgir os esclarecimentos que o governo se empenha em evitar.

A justificativa para a prisão, inicialmente baseada na obstrução da justiça e na possibilidade de fuga (Costa tentou destruir provas e omitiu a posse de passaporte português) foi ampliada com a descoberta de uma conta milionária do ex-diretor da Petrobrás na Suiça.

Fato que demonstra a ineficácia de uma comissão parlamentar bloqueada pelo governo. Dela, Costa saiu ileso apesar de não explicar a posse, em casa, de mais de meio milhão de reais em espécie, a não ser com a lacônica frase “prefiro pagar em dinheiro”.

O episódio merece um parêntese para lembrar a cassação do ex-deputado e líder do PMDB, Genebaldo Corrêa, na CPI do Orçamento, levada a termo pelo fato do parlamentar não conseguir responder se haveria algum cheque seu em posse do deputado João Alves, em torno do qual girava a operação com as emendas parlamentares.

Foi o senador Mário Covas (PSDB-SP) que, já no final de um longo depoimento de Genebaldo, o interpelou com a pergunta. Sem saber se Covas blefava ou possuía cópia de um cheque seu, o deputado hesitou. Disse que não poderia lembrar-se dada a longa convivência com Alves.

Covas, então, disse que não esqueceria a eventual emissão de um cheque seu para qualquer pessoa e a sorte de Genebaldo foi selada ali. Não havia o cheque, mas a hesitação do deputado baiano lhe foi politicamente mortal.

Costa não só tinha o dinheiro em casa como, sabe-se agora, mais de R$ 23 milhões na Suíça. Não precisou explicar e nem informar qualquer coisa a respeito das duas coisas. A CPI da época, em que pesem manobras localizadas que pouparam muitos, era para valer. A de agora, para inglês ver.

A de outrora, liderada pelo PT, então oposição. A de hoje, bloqueada pelo mesmo PT, há 11 anos governo. Porém, como CPI é CPI, o quarto depoimento da presidente da empresa, Graça Foster, deixa claro que a Petrobrás se ressentia há muito da atuação de Costa e outros dentro da empresa.

Depois da declaração da presidente Dilma Rousseff de que aprovou a operação de compra da refinaria de Pasadena por lhe omitirem dados contratuais essenciais à decisão, o depoimento de Foster agrava a situação de Costa.

E confirma que a antipatia que lhe dedica as duas presidentes – da República e da Petrobrás -, tem origem na suspeita permanente em relação à sua atuação.

Na verdade, a narrativa de ambas indica que eram impotentes, à época da gestão Sérgio Gabrielli, para vencer a carta branca política dada ao ex-presidente e a Costa, que garantiam aos dois uma autonomia inusitada para o padrão gerencial da Petrobrás.

É como se soubessem que coisas estranhas ocorriam à sua volta, mas não tivessem recursos para enfrentar a blindagem política de diretores da empresa. O que reforça a suspeita de que o respaldo político guarda vínculo direto com financiamentos de partidos aliados, como aposta a Polícia Federal.

Graça Foster quase foi às lágrimas no depoimento de ontem quando lhe pediram para comentar a declaração de Costa que atribuiu todo o problema com as refinarias investigadas (além de Pasadena a de Abreu e Lima, em Pernambuco),  a um sistema gerencial comparável “à conta de padaria”.

Nesse momento, se disse estarrecida com as denúncias que levaram Costa à prisão, revelando que ao tomar conhecimento de operações criminosas na empresa, sentiu-se envergonhada. A declaração entrega Costa à própria sorte e busca separar suas ações das aprovadas pela Petrobrás.

A quantia bloqueada no exterior pelo governo suíço é desvio que não se viabiliza sem um esquema mafioso dentro de uma estrutura como a da Petrobrás e nem soa factível que pertença a uma dupla como o doleiro Alberto Youssef e Costa. É um valor com destinações diversas envolvendo diversos outros atores.

Costa, seguindo velha receita de comunicação, responde ao que não foi perguntado, quando afirma que a Petrobrás não é uma organização criminosa. Envolvido na operação de desvio de recursos, dissimula espanto com essa acusação, jamais feita à empresa.

O que está em causa não é a idoneidade da Petrobrás, mas a de alguns dirigentes e ex-dirigentes que a usaram para fins pessoais e políticos e que tiveram respaldo político para tal.

Por isso, a indignação da presidente da empresa deveria se materializar na divulgação – cozinhada em banho-maria -, da investigação interna que tanto alardeou em depoimentos anteriores e em caríssimas peças publicitárias em defesa da Petrobrás.

A empresa parece ter adotado para essa investigação prazo político conveniente ao governo em véspera de eleição, caminhando no mesmo ritmo protelatório das CPIs e agravando o desgaste da imagem da Petrobrás.