Fora de controle

João Bosco Rabello

05 Fevereiro 2015 | 15h34

A instalação de nova CPI da Petrobras tem menos significado prático para as investigações sobre o escândalo de corrupção na empresa do que seu efeito político para o governo. O episódio confirma a perda do controle de sua base de sustentação pela presidente Dilma Rousseff do que já fora consequência a eleição do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da Câmara.

 É uma segunda derrota política importante que o governo sofre no prazo inferior a uma semana, com sinais de que a articulação política a cargo dos ministros Pepe Vargas e Aloísio Mercadante vai de mal a pior e sem perspectiva de melhora.

A eleição de Cunha parece ter construído uma bancada fidelizada à pauta com a qual o presidente da Câmara quer dar consequência à sua linha de independência vitoriosa na campanha à chefia da Câmara. A CPI da Petrobras se insere nesse contexto tanto mais quanto a ela se opuser o governo, desde que estimulou as versões de que nela estaria o próprio Cunha em algum momento.

A articulação do Planalto demonstra estar perdida diante do quadro político que exibe um número crescente de dissidentes em sua base, como ocorreu ontem. Segundo as contas estampadas nos jornais de hoje, foram 52 “traidores”, se assim devem ser chamados os governistas que assinaram o pedido da CPI.

Mais que isso, o ministro Pepe Vargas aparenta desconhecimento do regimento interno da Câmara ao deixar para o dia seguinte a operação para retirada de assinaturas, o que não poderia mais ser feito. Antes, o governo , aparentemente ainda anestesiado pela vitória de Cunha na eleição do domingo anterior, cochilou e deixou que a oposição preenchesse a lista de CPIs, limitadas a cinco.

A crise é reveladora também de que o PT vive talvez seu pior momento no Congresso Nacional, desde que chegou ao poder com Lula em 2003. Dividido internamente com a linha da presidente Dilma, que excluiu da composição de seu núcleo duro de governo representantes da corrente majoritária, o partido mais se assemelha hoje, na rotina do Congresso, a um grupo desorganizado.

A vitória parece ter efeito de doping político no deputado Eduardo Cunha que desde segunda-feira mantém a Câmara reunida e, ainda hoje, quinta-feira, quebra o padrão de “volta às bases”. Nos primeiros dias úteis seguintes à eleição, a Câmara abordou de forma oibjetiva questões que já viraram lenda pela indiferença que merecem dos parlamentares há décadas.

A reforma política e o orçamento impositivo são duas dessas questões, além do pacto federativo, que o novo presidente mencionou de forma mais genérica. Mas nos dois primeiros casos, já incomodou o PT com a reforma que contraria o partido, mas que, por isso mesmo, pode ter adesão suficiente para fazê-la andar.

O segundo caso, do orçamento impositivo, une de forma supraparidária as duas casas do Congresso e deverá reproduzir o desenho de um PT isolado na oposição. O governo sugere não dar conta da crise ampla que enfrenta, na economia e no campo político, estressado pelo caso Petrobras, que parece imobilizar a presidente Dilma e, ainda assim, impondo revezes sucessivos.

Do ponto de vista político, o governo está à deriva. A indisposição da presidente para o exercício político parece ter alcançado seu grau máximo, expondo o esgotamento de um modelo em que o diálogo com o Parlamento foi substituído pelo critério eliminativo que caracteriza o comportamento do PT.

Por ele, divergência se mata com a força do Executivo. Divergir significa com certeza virar alvo da desqualificação e do regime de pão e água, que na política não gera adversários, mas inimigos. A retaliação se torna questão de tempo, quando governos atingem o inevitável desgaste de final de mandato.

O grave aqui é que o governo Dilma está apenas começando um segundo mandato, mas já exibe sinais de exaustão. Herda de si mesmo um quadro de caos econômico, em que se juntam as consequências de uma gestão populista no primeiro mandato, a mais visível na crise energética, com o combate à corrupção que, ao contrário do que pregava a campanha presidencial, não está sob o controle e nem tem a iniciativa do governo.

A pauta é totalmente negativa e concentrada em questões urgentes para as quais não há solução de curto prazo. E se desenvolve sem a necessária firmeza que caracteriza um governo que sabe como e aonde quer chegar. Nesse momento, a presidente autoriza constrangida uma receita da qual discorda e cuja aplicação, por si só, denuncia seus próprios erros.

O governo sabe aonde precisa chegar, mas não tem condutores qualificados para percorrer o caminhoaté lá, precisando recorrer a quadros históricos do adversário, o que produz em seus atores uma espécie de esquizofrenia política.

É a desconstrução, pela realidade, do discurso adotado pelo partido. As grandes e reais necessidades da população se impõem à gestão de distribuição de direitos no varejo, do que é emblemática a redução da conta de luz , que hoje custa o dobro ao consumidor.

A crise do PT ainda leva tempo, sobretudo porque o partido ainda joga na defensiva, enquanto o desenho do mensalão, em proporções muito maiores, se reproduz no “petrolão”,sem que o primeiro tenha cessado seus efeitos.

Hoje o sinal mais preocupante para a legenda é a condução coercitiva de seu tesoureiro, Vaccari Neto, para depor no processo que investiga a corrupção na Petrobras. Não é pouco e identifica o estágio das investigações, pois é o tesoureiro o elo entre o dinheiro desviado dos cofres públicos para campanhas eleitorais do partido e de aliados, dentre as quais, a presidencial pode ter se beneficiado, ainda que à revelia da candidata.