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Estratégia de risco

João Bosco Rabello

terça-feira 04/03/14

Uma explicação de atento e participante ator dos bastidores políticos para a crise entre PMDB e governo é a de que este último a prolonga por enxergar na motivação do aliado dividendo eleitoral para a presidente Dilma. Por esse raciocínio, quanto mais o governo resistir, ou adiar a capitulação, mais visível fica a chantagem do […]

Uma explicação de atento e participante ator dos bastidores políticos para a crise entre PMDB e governo é a de que este último a prolonga por enxergar na motivação do aliado dividendo eleitoral para a presidente Dilma.

Por esse raciocínio, quanto mais o governo resistir, ou adiar a capitulação, mais visível fica a chantagem do PMDB para obter vantagens fisiológicas. Em consequência, melhor o efeito eleitoral da contenda para a presidente, candidata à reeleição.

Isso daria mais sentido ao comportamento do ministro Aloizio Mercadante, da Casa Civil, incoerentemente ríspido para quem está investido da missão de negociar.

O ministro, como se sabe, negou as demandas do PMDB e sugeriu que seus parlamentares se contentassem em posar ao lado da presidente em fotos eleitorais.

Considerando que as demandas do PMDB em nada diferem das dos demais partidos, conclui-se que a legenda foi escolhida para ser imolada na pira fisiológica com o objetivo de render dividendos eleitorais à candidata que, ao fim e ao cabo, apoia na sua corrida pela reeleição.

Se ainda terá que ceder, o governo atua com base numa relação custo/benefício duvidosa, de risco proporcional ao do índice de aprovação da presidente, que não torna tão atraente a fotografia eleitoral ao seu lado.

Os 43% da presidente, que parecem ter se fixado como teto, não são confortáveis para candidatos à reeleição, na maioria dos casos.

Se a escolha para essa estratégia de posar como vestal, resgatando a figura efêmera da faxineira avessa a fisiologismo, tivesse se concentrado num partido de menor poder de fogo e capilaridade, poderia livrar a candidata de riscos.

Mas o PMDB disputa com o PT em 11 Estados, cinco deles com prováveis palanques duplos. Essa disputa entre os dois pilares de sustentação da extensa base aliada é priorizada pelos dois rivais na aliança, acima da eleição presidencial.

É por isso que o PMDB acusa o governo de favorecer o PT – naquela que é a disputa mais importante para ambos. A ocupação dos ministérios reflete-se nessa disputa pelo território político nacional, onde o PMDB ainda lidera com expressiva vantagem.

A estratégia de desgastar o PMDB, se deixa bem a presidente Dilma junto à opinião pública, favorece também o PT – e é onde reside o seu risco.

Já se tem pesquisa registrando maioria pela manutenção da aliança na convenção do PMDB, mas o que importa aí é menos a maioria. É a existência de uma dissidência que serve de termômetro para exibir o desconforto do partido.

E aqui entra outro componente conhecido da política brasileira: o apoio político sem engajamento, burocrático, que não transfere votos em regiões de predomínio do parceiro desgostoso com o tratamento recebido.

O que o registro de uma dissidência na convenção sinaliza é o casamento de fachada, que o PMDB parece já ter adotado de forma majoritária.