Em busca da autoridade política

João Bosco Rabello

10 Fevereiro 2015 | 17h16

O governo prepara uma reação à queda nos índices de popularidade da presidente Dilma Rousseff, refletidos na recente pesquisa Datafolha, que registrou um abalo em todas as avaliações de desempenho. É um reconhecimento atrasado da realidade negada permanentemente.

Mas pelo que se noticia, o efeito positivo pode ser muito pequeno, já que a fórmula é a de demonstrar o compromisso com o combate à corrupção, uma ação baseada na premissa de que este depende do governo, como tentou fazer crer a campanha da presidente reeleita.

O combate ocorre à revelia do governo, no entanto, através da Polícia Federal e do Ministério Público, em trabalho que já produziu prisões e delações premiadas homologadas pelo Supremo Tribunal Federal – e sem a colaboração do governo. Ao contrário, no âmbito congressual, o Planalto se empenhou em obstruir as CPIs que pretendiam associar-se às investigações.

Além disso, o governo, ao que se noticia, pretende fazer de um pacote anticorrupção o ponto alto dessa reação, o que vem a ser exclusivamente uma peça de marketing. A Lei Anticorrupção aprovada recentemente pelo Congresso Nacional, com o aval do governo, já cumpre esse papel e, como mostra o estágio adiantado das investigações, não é de mais legislação que se precisa, porém de vontade política para enfrentar os desvios de conduta.

É o ponto vulnerável do governo, acuado pela vinculação dos principais partidos de sua base de sustentação ao esquema montado na Petrobras, com extensão por outras áreas da estrutura de Estado. O que o Ministério Público desvendou tem o patrocínio do partido da presidente Dilma Rousseff, cuja manifestação de apoio ao tesoureiro João Vaccari Neto, na comemoração do aniversário de 35 anos do PT desmente o compromisso com a isenção no combate à corrupção e põe em xeque a credibilidade da fala que programa para os próximos dias.

O governo precisa mesmo reagir à acelerada corrosão de sua autoridade política, mas poderia poupar a nação de mais marketing. O primeiro passo para qualquer correção é o reconhecimento das causas que levaram às distorções, para o que já seria bom sinal o engajamento nas mudanças necessárias.

Ir à televisão e fazer um discurso em rede já se provou fácil, como no episódio do anúncio da redução da conta de luz, origem da crise energética que tortura o país. Distribuidoras endividadas por uma redução de custo por decreto serão ressarcidas pelo consumidor, que recebeu 20% de abatimento na sua conta no ato populista do governo e, agora, vai pagar 45% a mais pela energia.

O governo precisa do que popularmente se diz “cair na real”, por exemplo, resgatando suas relações com o Congresso Nacional, onde a oposição não precisa fazer força: a base aliada cumpre o papel de atormentar o Planalto, sem que os ministros responsáveis pela articulação política consigam tempo sequer para metabolizar as derrotas sucessivas, o que passa primeiro por entendê-las.

O ex-presidente Lula precisou lançar sua candidatura para 2018, apesar de o governo estar em seu segundo mês do mandato de quatro anos, para justificar uma campanha antecipada nas ruas, em busca de reduzir a impopularidade da presidente e do PT.

É de se ver se o PT ainda tem as ruas, pois desde as manifestações de junho de 2013, elas deixaram de ser monopólio do partido. Foi preciso recorrer à guerrilha protagonizada pelos black blocs para espantar os manifestantes ordeiros que criticavam o governo e tirá-los de cena. Um choque de realidade que até agora o partido não absorveu.

De lá para cá, as coisas só pioraram para o governo. Mesmo reeleita, graças a uma campanha que negou a realidade econômica e política e as receitas necessárias para enfrentá-la, a presidente não consegue força para superar o efeito do discurso insincero, mais influente na queda de sua aprovação, do que as medidas amargas que se vê obrigada a tomar.

Mostrar reação é vital para o governo, mas ao que parece ela será tentada à base de mais discurso.