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Eleitor de resultados

João Bosco Rabello

25 junho 2014 | 15:58

Em qualquer sistema político, eleição é uma etapa essencial do processo e movida a competitividade. Debate sobre reformas à parte, portanto, o que explica o desordenado cenário de alianças este ano, que conseguiu agravar a geléia geral partidária brasileira, é essencialmente o declínio da candidata oficial nas pesquisas.

Dele decorre, em parte, a prevalência das alianças regionais sobre a nacional, sinal da perda de capital político do PT, detectada pelas bases dos partidos que formam a aliança que elegeu a presidente Dilma , hoje com menos fôlego para repetir a dose.

O governo não tem o mesmo poder impositivo de antes, o que já estava sinalizado na perda gradual do controle sobre sua extensa base congressual. Esta foi confortável enquanto os índices de aprovação do governo eram altos, mas passou a ser problema desde a instalação do processo descendente nas pesquisas.

A percepção do político antecede em muito a do cidadão e, mesmo, a dos observadores profissionais. Mesmo contrariado, o parlamentar aliado não investe contra o governo quando este se mostra forte junto à opinião pública. Ao contrário, quando constata o declínio como processo, materializa a dissidência.

O efeito contrário, nessas circunstâncias, é devastador, pois à extensão da base parlamentar do governo corresponde alto potencial de infidelidade, oculto nos tempos de ventos positivos. Sem leito ideológico, está assentada em solo movediço, sujeito às intempéries e aos erros de gestão com impacto no humor do contribuinte.

No caso do governo Dilma, a desconfiança política começou em 2012, quando lideranças experientes se deram o prazo de 2013 para avaliar as condições de seu governo em entregar resultados, expressão utilizada pela própria presidente em reunião com seus ministros no início daquele ano.

Foi também o momento em que o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos,começou a acenar com a possibilidade de sua candidatura pelo PSB, hoje consolidada. O governo registrava ainda altos índices de aprovação, mas a dificuldade em obter investimentos, a sinalização de mudança no modelo econômico e o projeto hegemônico do PT, entre outros indicadores, apontavam para um cenário futuro de risco.

Possivelmente embalados pelas pesquisas positivas, o PT manteve-se indiferente aos sinais negativos já perceptíveis e abraçou-se à ilusão de que fala o ministro Gilberto Carvalho, “de que o povo pensa que está tudo bem”. Apostou que conseguiria administrar os maus resultados sem que eles afetassem o cotidiano do cidadão, sustentado apenas num programa assistencialista.

Os resultados do governo alimentam as bases parlamentares de seus aliados e determinam a continuidade e a intensidade de seu apoio – ou a retirada deste. As bases dos parlamentares, portanto, lhe são mais caras do que o governo, porque delas depende o que lhe é mais essencial: a preservação do mandato.

Como assinala o cientista político Fernando Lattman-Weltman, da Fundação Getúlio Vargas (O Globo, 25/06), o eleitor é indiferente à incoerência ideológica das alianças, importando-lhe os benefícios produzidos pelos governos, especialmente nos serviços públicos. É o que ele chama, respaldado pelos fatos, de “pé no chão”.

As deserções na campanha de Dilma, formais ou informais, crescem na mesma proporção de sua queda nas pesquisas, indicando que o favoritismo de que já desfrutou não existe mais , o que remete novamente à crítica do ministro Gilberto Carvalho, que flagra o PT em um recorrente e ultrapassado discurso ideológico, com o qual tenta alinhar de um lado os progressistas e, de outro, os conservadores – tendo-se os primeiros como aqueles que apoiam incondicionalmente o partido e os últimos como profissionais do pessimismo , de espírito impatriótico. Ou de má-fé, como acaba de acusar o ex-presidente Lula.

Não é uma estratégia que comova mais o eleitor e sua aplicação serve apenas para evidenciar que o líder máximo do partido percebe que o desgaste alcançou a militância, cujo ânimo, historicamente vital para as conquistas eleitorais, precisa ser resgatado.

O apoio fragmentado nos Estados já autoriza a previsão de que Dilma não obterá o mesmo desempenho de 2010 em regiões estrategicamente importantes para a sua meta de reeleição. No chamado Triângulo das Bermudas, que reúne os três maiores colégios eleitorais – São Paulo, Minas e Rio -, estima-se que perderá para a oposição.

Nas demais regiões, poderá vencer, mas sem o mesmo volume de votos da última eleição, casos do Norte e Nordeste. Ainda que tais previsões possam se mostrar bem menos contundentes, é certo que já não se pode mais falar em favoritismo, o que está explícito no reconhecimento, pelos líderes do PT, de que a eleição será a mais dura de quantas o partido enfrentou.