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Dissidência do PMDB reflete tamanho do risco de Dilma

João Bosco Rabello

quarta-feira 11/06/14

Com uma variação para mais, o resultado da convenção do PMDB foi o esperado: o partido renovou o apoio à aliança com o PT para a disputa da presidência da República, reservando-se o direito de não estender o compromisso às estruturas regionais que cuidarão de seus cenários como lhes convier. Alguns aspectos desse processo são […]

Com uma variação para mais, o resultado da convenção do PMDB foi o esperado: o partido renovou o apoio à aliança com o PT para a disputa da presidência da República, reservando-se o direito de não estender o compromisso às estruturas regionais que cuidarão de seus cenários como lhes convier.

Alguns aspectos desse processo são reveladores do distanciamento do partido em relação à presidente da República, com origem na difícil convivência com o PT.  A naturalidade com que os dirigentes avalizaram a renovação do crédito em contraste com a falta de garantias, é uma síntese da fragilidade do contrato político.

A começar pela cédula de votação. Nela, o nome do vice-presidente Michel Temer, como a referência do evento, do PT, como beneficiário da aliança, sem qualquer menção ao nome da presidente. Significa que o partido apoia Temer para manter-se como vice da chapa que surgir – que poderá ter Dilma na cabeça, se a convenção do PT, daqui a 20 dias, confirmá-la.

Poucos acreditam na possibilidade de Dilma vir a ser substituída pelo ex-presidente Lula, mas também poucos se dispõem a apostar uma mariola de padaria no contrário. A queda da presidente nas pesquisas, consistente e gradual, tornou inseguro o ambiente da reeleição, sobretudo porque a ampla exposição de Dilma na mídia – espontânea e oficial –  não alteram os maus índices.

Ainda ontem, depois do longo pronunciamento da presidente em rede nacional de televisão, uma peça de campanha escancarada com dinheiro do contribuinte, a reação da oposição era mais para marcar posição do que de incômodo. O espaço na televisão já não garante à presidente melhora nas pesquisas.

Ao contrário, os candidatos de oposição, especialmente o senador Aécio Neves (PSDB) dão indicações de crescimento após a primeira inserção na televisão, o que autoriza a expectativa otimista com o início da fase de propaganda gratuita. Já Eduardo Campos parece ter sua dificuldade mais localizada em erros de campanha do que nos recursos que possam lhe expor mais ao público.

A principal dificuldade para a troca de Dilma por Lula está em seu condicionamento à renúncia da presidente à candidatura. Depois de confirmada na convenção, sua saída só será possível por essa via. E, antes, seria preciso atropelá-la, diante da manifestação já feita por ela de que “irá até o fim”.

O tema deixou de ser objeto de movimento público, com a dose de agressividade que exibiu durante meses, quando a perspectiva de vitória era maior. Mas passou a frequentar as conversas em qualquer mesa política – do governo e da oposição. O risco concreto da derrota, trazido pela última pesquisa Data Folha, acendeu o sentido de sobrevivência dos que buscam a renovação de seus mandatos.

Especialmente o dado secundário da pesquisa, que mostra a derrota de Dilma em São Paulo, numa simulação de segundo turno, para qualquer um dos candidatos de oposição, assustou o PT. Por ele, Aécio venceria Dilma por 46% a 34%. Campos, por 43% a 34%. Nesse último caso, o drama aumenta: o candidato do PSB tem apenas 6% da intenção de votos do eleitorado paulista, mas na simulação vai a 43%.

Equivale a dizer que o eleitor vota ater no candidato que não conhece, mas não na presidente. Reflexo da fragilidade do PT no Estado, onde o prefeito Fernando Haddad não somou votos para o candidato ao governo, Alexandre Padilha – que, por sua vez, estagnou nas pesquisas desde o envolvimento de seu nome na operação do ministério da Saúde com o laboratório de fachada, Labogen, do doleiro Alberto Youssef.

Para alguns, o PT paulista vive drama semelhante ao do PSDB nos anos 90, quando sofreu fragorosa derrota de todos os seus ícones e perdeu o governo para Orestes Quércia e Luis Antonio Fleury. Mesmo os que discordam da comparação concordam que o partido vive seu momento mais difícil no Estado.

O mapa da queda de Dilma guarda outro aspecto importante para a oposição: ela é maior na região sudeste que abriga os três maiores colégios eleitorais  do país – São Paulo, Minas e Rio, nessa ordem, o chamado Triângulo das Bermudas.

É nele que Aécio Neves apostou suas fichas, convicto de que Dilma não repetirá as votações anteriores nas regiões Nordeste e sul, como mostram os cenários de Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, mais Bahia, Pernambuco e Ceará.

Era preciso, então, tirar-lhe votos no sudeste e transferi-los para o candidato de oposição, o que vem sendo sinalizado nas pesquisas. A dissidência de 40% na convenção do PMDB indica que o partido recorreu ao velho esquema de manter-se pronto para alterar rumos, conforme os ventos soprem após a Copa do Mundo, quando efetivamente a campanha decola.