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Difícil convivência

João Bosco Rabello

21 agosto 2014 | 11:52

As queixas do presidente do PSB, Roberto Amaral, com relação ao noticiário político nos dias que se seguiram à tragédia aérea que tirou de cena o ex-governador Eduardo Campos, antes de exibir um descontentamento pessoal, refletem mais a crise interna que dividiu o partido em relação à candidatura de Marina Silva.

Esse aspecto é mais importante que o aborrecimento de Amaral com a leitura que o colocou como opositor da candidatura da ex-senadora. O presidente do PSB faz parte da corrente que considerava melhor um realinhamento com o PT, do que é atestado insofismável sua reunião com o ex-presidente Lula antes ainda do sepultamento de Campos.

Amaral tomou esse registro da imprensa como uma crítica ao momento da reunião, mas a referência temporal teve o objetivo simples de mostrar que não era possível fazer a roda parar de girar. Como disse o ex-secretário de Meio Ambiente do governo de Pernambuco, Sérgio Xavier, as circunstâncias estabelecem que “é hora de chorar e trabalhar ao mesmo tempo”.

O tempo conspirou contra a extensão das homenagens a Campos e para que o luto pudesse firmar o hiato político ideal. A uma semana do início do programa de televisão, o partido precisava definir com rapidez se abdicaria da disputa pela Presidência ou se faria de Marina sua candidata em substituição a Campos.

Tanto assim, que a própria viúva, Renata Campos, em meio à dor e sofrimento pessoal, encontrou força para orientar o desejo da família pela consolidação da candidatura de Marina. Antes dela, o irmão de Campos fez o mesmo à porta da casa da família. Assim, a síntese de Xavier estava autorizada.

Daí que o aspecto da reunião com Lula ganha importância apenas pelo que tem de importante: a possibilidade de realinhamento do PSB com o PT, de interesse óbvio do ex-presidente, e posição defendida por Amaral. Esse conflito perde o poder objetivo com a confirmação de Marina, mas não se desfaz, porque tem seu gene nas divergências internas entre Rede e PSB.

Como o próprio Amaral definiu, como presidente cabe a ele conduzir as questões do partido – e as contradições da coligação são parte dessa pauta. Confirmada Marina como candidata e, agora, o deputado Beto Albuquerque como seu vice, essas contradições se materializarão na condução do programa comum e da campanha pela sua nova titular.

Não é exagero dizer que essa convivência interna é desafio maior para a coligação do que sustentar um crescimento eleitoral consistente de Marina. O problema é que um depende do outro e a posição reafirmada da candidata em São Paulo, por exemplo, dá a medida da dificuldade de convivência.

No maior colégio eleitoral do país, onde a presidente Dilma registra um índice de rejeição altíssimo, de 49%, Marina está decidida a manter a posição de não participar da campanha em que o PSB está aliado ao PSDB.

Essa posição foi firmada quando Campos ainda era o candidato à presidência e tratava-se, então, de a sua vice não associar sua imagem à campanha do governador Geraldo Alckmin. Agora ela é a candidata e sua omissão significa a ausência da candidata à presidência do PSB da campanha do aliado em São Paulo.

O cenário paulista põe em dúvida a base do acordo que precedeu a confirmação de Marina, de que ela honraria as alianças deixadas por Campos. Em que pese a distância de São Paulo fazer parte do acordo com o ex-governador, mantê-lo agora equivale a desconsiderar que o candidato morto supriria a ausência da vice, o que não pode mais ocorrer.

Marina não teve o apoio do presidente do PSB paulista, deputado Márcio França, para suceder Campos, exatamente por isso. Vice na chapa de Alckmin, o deputado seguirá com o partido, mas deixa claro sua discordância em relação a essa e outras posturas da ex-senadora.

Em Minas, a candidatura de Tarcísio Delgado também saiu a fórceps, pois a regional do partido desejava a aliança com Aécio Neves, o que pode levar à cristianização de Marina no Estado. São Paulo e Minas são apenas dois casos entre muitos outros que afetam as bases eleitorais.

O grito de marina contra o agronegócio , que já havia desfeito acordos importantes para o PSB em regiões como mo Centro-Oeste, agrava-se com a sua ascensão ao lugar antes de Campos. Em Mato Grosso do Sul, o candidato Nelsinho Trad já anunciou sua saída da aliança.

A coerência que Marina procura manter em relação aos seus princípios éticos podem constituir uma virtude pessoal, mas não necessariamente política. Quando se parte de uma premissa falsa, todo o raciocínio que a sucede estará contaminado por um erro de origem.

Ou seja, pode haver coerência no erro, se a inflexibilidade for seu ponto de partida. No caso presente, haverá mais dificuldades se a ex-senadora não partir do princípio de que não se dá um salto mágico da velha para a nova política, porque todo processo impõe a transição.

No ato de anúncio da coligação que surpreendeu o mundo político, Marina e Campos a justificaram como uma aliança programática, mas seu objetivo principal – de interromper o ciclo do PT no poder, também afirmado por ambos -, revela a prevalência do pragmatismo político no acordo.

Como não há convergências nos pontos essenciais da coligação – ou, pelo menos, as divergências são mais consistentes -, não parece possível sustentar em primeiro plano a tese programática em um contexto que o pragmatismo, expresso no objetivo de derrotar o PT, é a argamassa da construção política abalada pela morte de seu protagonista principal.