De volta à realidade

João Bosco Rabello

18 Fevereiro 2015 | 18h32

A quarta-feira de cinzas marca o fim da folia e da trégua que representou para o governo o período da folia momesca. A tradição de esticar o feriado mais longo do ano reserva para a próxima semana o reencontro do Planalto com a difícil pauta política em que o ajuste fiscal é desafio gigantesco.

Mas desde já o governo prepara-se para a reunião da próxima terça-feira com os líderes de sua base política no Congresso, dividida entre a liderança do Planalto e do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que ainda seduz uma maioria empolgada com o desenho de independência que sua eleição produziu.

O risco sério para o governo é insistir na divisão com o PMDB, que gerou não só a derrota eleitoral no Legislativo, mas outras decorrentes desta. A julgar pelo noticiário do feriado, o novo líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), aposta no enfrentamento com Cunha ao indicar para vice-líderes do governo integrantes do bloco do PMDB.

O risco à vista para o PMDB é a iminente publicidade dos parlamentares da base aliada envolvidos no chamado “petrolão”, que deverá abalar a solidez do exército rebelde montado por Cunha. Segundo as delações premiadas ainda sob sigilo formal, o partido comandava uma das diretorias da Petrobras que alimentavam ilegalmente os cofres partidários.

Ainda que pontualmente possa ter integrantes também envolvidos no escândalo, a oposição não deverá aparecer como parte do processo de corrupção sistêmica montada na Petrobras. Por isso, deverá ganhar desenvoltura no âmbito legislativo, onde não precisou, até aqui, fazer força. O conflito entre o governo e sua base alimentou sozinho a agenda negativa.

Cenários de terra arrasada são campos férteis para opositores, mas também solo movediço em que excessos podem levar a uma overdose. Nesse contexto, se insere qualquer tentação de estimular uma campanha de impeachment, com o gene da precipitação. Impeachment é consequência de erros de governo e não meta de partidos de oposição.

O PSDB parece ter percebido nos últimos dias essa realidade. Está mais arisco em relação ao tema e mais cauteloso na sua abordagem. Deixou de tomar iniciativa nesse sentido e, provocado, mantém a ressalva de que o tema não está na agenda do partido.

O governo já tem contra si os resultados da gestão desastrada do primeiro mandato de Dilma Rousseff do que é prova pública a receita do ajuste fiscal, entre outras correções de rumo. A percepção desse processo pela população está retratada na recente pesquisa Datafolha que registra a maior queda de aprovação do PT desde que subiu ao poder, em 2003.

O PSDB não tem nada a ganhar com a adesão a uma campanha dessa natureza. Teoricamente – e só teoricamente -, o PMDB é que teria interesse no impeachment, na suposição de que levaria ao poder o Vice Presidente Michel Temer e, por consequência, o partido. Nada mais falso. Para isso seria preciso uma causa não vinculada à eleição presidencial, de que não se tem notícia.

Pela via eleitoral, possibilidade mais palpável, se eventualmente constatada a contaminação do financiamento da campanha de Dilma pelo duto ilegal da Petrobras, a consequência atingiria a chapa vitoriosa, o que excluiria também o PMDB. A falência do governo é algo bem mais subjetivo para sustentar um impeachment, embora não seja descartável.

Ao PMDB interessa mais explorar a vulnerabilidade em que se colocou o próprio governo para impor-se a este no Legislativo em contraponto ao PT, na disputa que realmente move o partido de Michel Temer. Um governo politicamente fraco é o campo de jogo preferido do PMDB, que também viverá seu conflito com a liderança do vice-presidente em baixa.

Temer, aliás, é o principal atingido pela campanha do impeachment, especialmente quando se identifica no seu partido a tentação do atalho para a presidência. Fica como Itamar Franco esteve para Fernando Collor, com a singela diferença de que a corrupção de hoje não alcançou a presidente da República, como no exemplo passado.

Há quem já perceba no vice-presidente um profundo incômodo com a situação. Mas também é do governo a responsabilidade final por tudo isso, pois contribuiu para o enfraquecimento de seu vice dentro do próprio partido, excluindo-o do núcleo decisório e fortalecendo indiretamente Eduardo Cunha.

O primeiro teste nesse cenário confuso será a votação do veto presidencial à alíquota de ajuste do Imposto de Renda, em 6,5%, que produziria uma renúncia fiscal da ordem de R$ 7 bilhões, contra R$ 4 bilhões se o reajuste for de 4,5%, percentual do centro da meta de inflação, como quer o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.