Crise e isolamento

João Bosco Rabello

03 Fevereiro 2015 | 16h50

A vitória do PMDB nas eleições para as mesas da Câmara e Senado, agravou, de um lado, o conflito interno no PT, e, de outro, impôs forte desgaste aos ministros palacianos responsáveis pela estratégia intervencionista no processo eleitoral parlamentar.

Aloísio Mercadante, da Casa Civil, Pepe Vargas, das Relações Institucionais, e Miguel Rosseto, da Secretaria-Geral, são criticados não só pelos adversários, mas pela corrente majoritária do PT excluída da composição política ministerial.

Faz parte dessa corrente o ex-presidente Lula, cujo comportamento é percebido pelos sinais que emite,- ora, com sua ausência; ora com vazamentos combinados de críticas à sucessora, ora surgindo como executor de ações salvadoras – como ocorreu na campanha presidencial, no Rio, Pernambuco e Minas, decisivos para a reeleição de Dilma.

Na campanha, Lula empenhou-se na reta final para exibir a força eleitoral pessoal, mas também porque tratava-se de evitar a derrota do PT e a saída do poder. Mas, agora, ante a impossibilidade de nova candidatura de Dilma em 2018, comporta-se como o conselheiro que não é ouvido pela presidente, que coleciona derrotas.

A eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara é o mais recente episódio em que Lula deu realce ao seu papel de conselheiro ignorado, para colher os frutos da derrota do governo uma vez consumado o desastre da candidatura de Arlindo Chinaglia (PT-SP), patrocinada pelo Palácio do Planalto.

Lula aconselhou desde o início que a interferência do Planalto no processo eleitoral fosse de conciliação, em busca de um acordo que evitasse a fragilização do PT e do governo. Interferir de outra forma agravaria o conflito entre os dois principais partidos da base de sustentação e tornaria inevitável a vitória de Cunha.

Tentava evitar a aposta no “tudo ou nada”, transformada em ação pelo ministro Aloísio Mercadante, que aumentou o oxigênio de Cunha, já consolidado como o candidato da independência em relação ao Planalto. Perdeu, pois, Mercadante, e venceu Lula, que jamais confiou ao correligionário missão expressiva enquanto presidiu o país.

Se é verdade, porém, que a derrota de Chinaglia mergulhou o PT em crise interna que já viera à tona nas manifestações em toim de ruptura, da senadora Marta Suplicy (SP), é igualmente real que o PMDB terá pouco tempo para saborear a vitória imposta ao rival na base do governo, às vésperas de ser conhecida a relação de parlamentares alvos de inquérito na operação Lava jato.

É certo que a leva de parlamentares constantes do processo em iminência de tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) são majoritariamente do eixo de sustentação do governo – PT, PMDB e PT, o que autoriza a previsão de um abalo sem precedentes nessas legendas, extensivo à instituição legislativa.

O dia da vitória do partido do vice-presidente Michel temer é a véspera da crise legislativa que o tem como um dos protagonistas, o que certamente desidratará a energia conquistada com a recente eleição. Será o momento da lei de Murici, da máxima popular, pela qual “cada um cuida de si”.

Embora as investigações atinjam o governo, o momento do abalo no Legislativo produz como efeito colateral, ainda que efêmero, uma lufada de oxigênio para a presidente Dilma Rousseff, que poderá se beneficiar da vulnerabilidade de sua base para resgatar parte do poder impositivo do Executivo.

Nada que represente uma volta por cima, porque o risco de um processo de impeachment, por improbidade administrativa no caso da Petrobras, já ronda a presidente, como mostra o parecer do jurista Yves Gandra Martins, faltando para tal as condições políticas para seu transcurso, que podem surgir com o agravamento do conflito entre o Planalto e sua base política.

Não por outra razão, Dilma empenhou-se em derrotar Cunha. A lógica possível por trás dessa decisão, derreteu-se, no entanto, ante a perspectiva de uma óbvia vitória de Cunha, que recomendava distância do Planalto para não se associar à derrota. Mas assim não ocorreu.

Mesmo com a vitória consolidada de Cunha (a dúvida era se no primeiro ou no segundo turno), o governo decidiu ir para o tudo ou nada, apesar do risco de isolamento da presidente, um estágio anterior ao da solidão no Poder.