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Contradição limita administração de crise pelo governo

João Bosco Rabello

04 abril 2014 | 15:11

Estratégia de redução de danos, como demonstra a expressão, não elimina o desgaste de um governo ou de uma instituição cujas gestões questionadas na sua  inidoneidade. Apenas diminui o efeito negativo ou evita repercussões piores ditadas por novas descobertas trazidas por investigações.

É nesse contexto que vivem hoje  Petrobrás e governo em razão de operações comerciais da primeira, com aval do segundo, uma delas posta em suspeita pela própria presidente da República, ao se dizer ludibriada por um  resumo da compra de uma refinaria nos Estados Unidos, segundo ela omissa em pontos essenciais à sua aprovação.

O episódio estabeleceu um conflito entre Petrobrás e governo que explica as dificuldades oficiais para conduzir qualquer estratégia de administração de crise: a empresa ainda hoje defende a operação como um bom negócio, enquanto a presidente Dilma Rousseff sustenta o contrário, e reclama da omissão de dados indispensáveis à compra.

É essa contradição que constitui o fato novo a justificar o pedido de CPI pela oposição, dois anos após outra relativa à mesma operação da Petrobrás, que resultou em nada. Uma CPI que pode ser atropelada pela reação do governo no Congresso, tentando ampliar os focos de investigação para não apurar nada.

É a estratégia de redução de danos em curso, protelando as investigações a partir do caos. Pode dar certo, especialmente porque o objetivo principal é estreitar o tempo para as investigações para que seus resultados não afetem o projeto de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Mas o êxito da estratégia governista tem por limite evitar o pior. O efeito político temido já é real: a oposição ganhou espaço e visibilidade sem fazer esforço em cima de denúncias graves, uma delas legitimada pela manifestação da presidente Dilma. O desgaste de evitar a CPI expõe diariamente o governo e amplifica as suspeitas sobre a Petrobrás.

Como demonstra a história recente, mesmo CPIs que tiveram seus resultados limitados por conveniência política suprapartidária – como a que levou o nome do contraventor Carlos Cachoeira -, produziram estragos irreversíveis.

Que o diga o governador do Rio, Sérgio Cabral, cuja popularidade despencou nas asas da Delta, empreiteira com a qual consolidou relações muito além do recomendável e que até hoje ameaça descarrilar seu projeto político no Estado. Cabral foi atingido por uma CPI criada pelos seus aliados governistas, à frente o ex-presidente Lula.

Essa imprevisibilidade é que leva governos a impedirem CPIs. Mas não os poupa do desgaste político. Nessa fase preliminar que caracteriza toda CPI – indo à frente ou não –,  as informações vazam  movidas por interesses contrariados ou por atores do processo que reagem em legítima defesa.

Ou por reações de agentes envolvidos nas operações que não se dispõem a pagar solitariamente a conta de esquemas em que tiveram a cumplicidade oficial.  Foi o caso do ex-deputado Roberto Jefferson, que acabou na denúncia do mensalão.

E que parece, em princípio, ser o caminho escolhido pelo ex-diretor da Petrobrás, Nestor Cerveró, identificado como o agente da fraude a que se refere a presidente Dilma Rousseff, ao se dizer induzida a erro na aprovação da compra de Pasadena.

Cerveró não parece ter condições de desmentir a presidente, mas certamente tem outros elementos para agravar a situação da Petrobrás e de parlamentares com influência política na empresa, base de todos os males do gênero que se percebe nas operações postas em suspeita.

É com esse cenário que o governo terá de conviver daqui em diante, com ou sem CPI. Os depoimentos de atores do processo, a começar pelo próprio Cerveró, ocuparão os noticiários, centralizarão as atenções, como ocorreria numa CPI. A diferença é que no contexto atual não há investigações, com quebras de sigilo e instrumentos outros próprios das comissões de inquérito.

É o que o governo tenta evitar. Mas a oposição ganhou um palanque, cuja legitimidade foi dada pelo próprio Palácio do Planalto.