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Campos aposta na piora do governo

João Bosco Rabello

23 setembro 2013 | 12:00

Ao tomar a iniciativa de entregar os cargos do PSB no governo, o que significa deixar sua base de sustentação, o governador de Pernambuco e presidente da legenda, Eduardo Campos, deu o sinal até aqui mais eloquente da irreversibilidade de sua candidatura presidencial em 2014.

Sua cautela em não fazer oposição imediata ao governo que ajudou a eleger, preserva as condições para eventual  aliança no segundo turno.

O desembarque associado à disputa presidencial se encaixa na meta do governador de dar visibilidade à sua imagem ainda pouco disseminada em todo o país, razão original de sua candidatura, concebida menos para vencer e mais para viabilizá-lo, de fato, em 2018 e  ampliar a bancada do partido no Congresso Nacional.

Os rumos da economia e a ineficiência de gestão do governo, porém, indicaram a possibilidade de antecipação da meta para 2014.

O gesto de abdicar dos cargos busca sugerir ao eleitor a imagem de um partido desapegado ao poder, em contraste com a batalha travada entre as demais legendas da base aliada pela ampliação de seus espaços na estrutura de governo, do que são exemplos mais notórios o PT e o PMDB.

Ao mesmo tempo, consolida internamente a candidatura e obriga seus opositores no partido a se definirem.
Casos dos irmãos Gomes – Cid e Ciro, governador e secretário de Saúde, respectivamente, do Ceará.

E do ministro Fernando Bezerra, da Integração Nacional, desde sempre hesitante entre a fidelidade ao governo ou ao partido. O que explica o pedido da presidente Dilma para que não saia de imediato, investindo na possível dissidência por ora localizada no Ceará, mas com potencial para contaminar outros governos do PSB, cujos resultados dependem da boa vontade federal.

De azarão, Campos ganha corpo e passa a preocupar, não só pelas perdas regionais que sua candidatura impõe aos ex-aliados, mas pelo seu perfil de candidato palatável aos eleitorados tanto do PT quanto do PSDB, com baixíssimo nível de rejeição e amplo potencial de crescimento – tanto maior quanto pior se sair o governo Dilma até o meio do ano que vem.

Ao PSDB, mais que a perspectiva de aliança importa nesse momento a consolidação da candidatura de Campos que, somada à de Marina Silva, é garantia de segundo turno. O candidato tucano, Aécio Neves, e o governador, se empenham em conviver sob uma espécie de acordo de procedimentos nessa fase de pré-campanha que prioriza a construção das alianças regionais.

A saída do governo cria dificuldades para o PT nesse campo dos acordos estaduais e municipais e abre espaço para o estímulo à parceria com o PSDB que, de fato, avança. Não por acaso, a irritação da presidente Dilma com a foto de Camps e Aécio em reunião propositadamente indiscreta.

Não obstante a relação entre a saída do PSB da base do governo e a confirmação da candidatura de Eduardo Campos, o PSDB ainda tem dúvidas sobre a solidez do projeto do governador para 2014 – temor tucano e esperança do ex-presidente Lula, possivelmente baseados na característica avulsa da candidatura, até aqui com a parceria apenas do PPS.

Mas considerando a idade de Campos, a meta de ampliação da bancada do partido e de sua capilaridade municipal, e a própria visibilidade com vistas a 2018, Campos só sacrifica agora o conforto que a condição de aliado proporciona, ônus que a relação custo/benefício parece respaldar.

A grande fiadora, porém, do gesto do PSB é a aposta do governador na piora dos resultados do governo, cuja recuperação vinha sendo depositada nos leilões do pré-sal e de rodovias, que parecem não ter empolgado os investidores.

Por trás do insucesso dos leilões recentes ainda está a desconfiança do empresariado e, agora, a quase certeza, de que falta ao governo maturidade política para contornar a resistência à parceria com a área privada.

Sempre vendida nas campanhas eleitorais pelo PT, quando oposição, como programa entreguista, a privatização é agora irreversível para o partido no governo.

Essa dubiedade, a centralização excessiva da presidente, a baixa qualidade do ministério e a extensa e voraz base política do governo são a garantia de dificuldades para Dilma e estímulo para o governador de Pernambuco.

Nesse contexto, Campos está convicto de que não perde nem na derrota.