Apoio a PT faz governo sócio da derrota

João Bosco Rabello

02 Fevereiro 2015 | 16h59

O principal derrotado nas eleições de ontem para a presidência da Câmara, foi o PT, em revés ao qual o governo não precisaria estar associado, não fosse a teimosia em interferir em disputa entre os dois principais partidos de sua base de sustentação.

Pois é disso que se tratava , mas acabou como derrota do governo pel,a condução desastrada da articulação política confiada pela presidente Dilma Rousseff aos os ministros Aloísio Mercadante, da Casa Civil, e Pepe Vargas, das Relações Institucionais.

No centro do conflito, o polêmico deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que mais uma vez teve atribuída sua vitória por representar o desafeto preferido da presidente da República – que lhe foi estratégico na maioria que lhe deu a vitória no primeiro turno.

Os números da eleição foram muito além das contas pessimistas do governo, o que amplia o poder de barganha do PMDB e submete o PT a uma inferioridade no Legislativo sem precedentes, do que é espelho a ausência de qualquer representante da legenda na Mesa Diretora.

Os votos de Cunha -267 -, ficaram três abaixo do menor número estimado pelo governo, mas a do candidato do PT, Arlindo Chinaglia (SP), foi muito pior do que se podia supor: ele teve 44 votos a menos que o número do bloco formado em seu apoio.

Cunha só não teve a votação de 300 parlamentares, ou acima ainda disso, como calculara, porque o PSDB conseguiu manter a unidade em torno do candidato de oposição, Julio Delgado (PSB-MG), em grande vitória pessoal do senador Aécio Neves (MG), que afirmou sua liderança no PSDB.

Os tucanos garantiram, pelo menos, 50 dos 54 votos da bancada para Delgado, o que explica o apoio surpreendente de 100 votos, número jamais cogitado pelas contabilidades dos concorrentes. Além de garantir a reciprocidade pelo apoio dos socialistas na eleição presidencial, Aécio obteve o efeito mais desejável para o partido que era tirar as digitais da candidatura de Cunha e ver o PT derrotado.

Pior avaliado nesse processo, o ministro Pepe Vargas (PT-RS), revela em sua própria fala após a derrota de seu partido, uma das causas – possivelmente a principal -, para o revés. Criticado pela inflexibilidade na condução das negociações que fez pelo governo, respondeu que seu papel “não é ser doce”.

E completou o raciocínio: “Falei no tom que tinha de falar. Não é bom que um partido que está no governo se some à oposição”. Vargas demonstra que o PT considera o PMDB governo quando se trata de cobrar fidelidade, o que não corresponde ao tratamento dispensado na divisão de poder na estrutura governamental.

O ministro avaliza a recorrente reclamação do PMDB de que o PT se considera mais que o PMDB no governo. Isso pode ser identificado quando Vargas diz que usou o tom adequado para um partido que se comporta como oposição ao governo.

Mas o movimento do PMDB é contra o PT. Na disputa entre ambos compensa a inferiorização na estrutura do governo com a supremacia no Congresso, amplamente afirmada ontem nas duas casas legislativas. Ao contrário da convicção de Vargas, a hora era de mel e não de vinagre.

No Senado, o governo conseguiu manter na presidência o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), mas não com a ajuda do PT, que até 15 minutos antes da votação ameaçava com a possibilidade de apoio ao candidato dissidente do PMDB, Luís Henrique (SC), se não fosse atendido na ampliação das exigências para manter-se fiel à candidatura que o Planalto apoiava.

Nada mais revelador que tal cenário para reforçar que a disputa se trava entre os dois partidos. O PT exigia a primeira vice-presidência, a terceira secretaria, a liderança do governo na Casa e mais duas comissões permanentes.

Quando a lista de exigências chegou ao fim, ouviu de Renan que estava preparado para vencer sem o apoio do PT. E reduziu o preço para seguir com o senador alagoano. Foi quando Aécio Neves cessou a campanha por telefone para ampliar a votação em Luís Henrique, certo de que o governo ficara menor no Senado, o que os 31 apoios ao senador dissidente confirmam.

Mais dependente de Renan, o Planalto foi arrastado também ali para um confronto desnecessário. Menor que na Câmara, porque queria a vitória de Renan, ao contrário do que ocorreu com Eduardo Cunha.

Mas o papel do PT contrastou com o do governo, que teve ministros renunciando para votar em Renan e depois reassumir seus cargos, casos de Eduardo Braga (AM) e Kátia Abreu (TO) – esta, duas horas antes da cerimônia de seu casamento.