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Aécio consegue unidade e se fortalece no sul e sudeste

João Bosco Rabello

terça-feira 01/07/14 15:30

Encerradas as convenções partidárias, que não apresentaram surpresas do lado do PT, tem-se um quadro de resgate da unidade partidária do PSDB, que esteve ameaçada na fase de negociações no principal colégio eleitoral, São Paulo.

O senador Aécio Neves logrou conquistar o que talvez fosse sua principal meta, um arco de alianças que fortalece sua candidatura no plano nacional nas regiões sul e sudeste, reeditando a parceria Minas/São Paulo, os dois maiores colégios eleitorais e explorando eficientemente a dissidência peemedebista no Rio de Janeiro.

No Paraná e Santa Catarina, eleitorados com histórico antipetista, o PSDB também alimenta legítima expectativa de vitória e, no Rio Grande do Sul, a aliança com o PP da senadora Ana Amélia se vale do desgaste do governo Tarso Genro, do PT, sustentando o favoritismo da candidatura.

No nordeste, a situação é mais difícil, principalmente pela escolha de um vice da região ter sido sacrificada em favor de uma estratégia nacional mais eficiente para a campanha. Mesmo assim, vale-se da dissidência governista na Bahia, importante colégio eleitoral em que a presidente Dilma não deve obter o mesmo resultado da última eleição.

No Ceará, a união com o PMDB, que pode devolver o empresário Tasso Jereissati ao Senado, numa chapa com o senador Eunício de Oliveira para o governo, a situação parece bem mais favorável que antes, ao tempo em que o senador governista ainda alimentava esperanças de um acordo com o governador Cid Gomes, do Pros.

Mas é em São Paulo que o resultado final fez justiça à forma mineira de se fazer política. Aécio conseguiu transitar entre os interesses que separaram o governador Geraldo Alckmin , por algum tempo, das metas desejáveis ao PSDB nos planos estadual e nacional, conciliando no limite possível as diferenças com potencial divisionista.

A perda do PSD, com a ida do ex-prefeito Gilberto Kassab para a candidatura do PMDB, guarda uma relação custo/benefício, apesar de inviabilizar o cenário ideal, que reuniria todos os atores identificados com um eleitorado antipetista.

Sem Kassab, que fora convidado por Alckmin para compor sua chapa como vice, foi possível equacionar da melhor forma a participação do ex-governador José Serra no processo, abrindo espaço para sua candidatura ao Senado, como queria e à altura de sua dimensão política, histórica e eleitoral.

O efeito no cenário estadual também é positivo. Alckmin selou sua aliança com o PSB, pacificou a aliança e a relação com o seu partido, e se beneficia da identificação da candidatura de Paulo Skaf como a tábua de salvação do PT, cujo candidato, Alexandre Padilha, permanece nos 3% nas pesquisas.

Skaf e Alckmin correm na mesma faixa do eleitorado paulista, aquela que as pesquisas mostram refratária ao PT e que reflete com maior nitidez o eleitor de resultados, menos sensível ao discurso ideológico, principalmente o da esquerda clássica, que se mostra defasado também em outros pontos do país.

Alckmin tem o dobro das intenções de voto de Skaf e pesará na decisão do eleitorado de ambos, a preferência petista pelo presidente da Fiesp, mantida a dificuldade de decolagem do ex-ministro da Saúde, afetado pelo escândalo em seu ministério envolvendo o doleiro Alberto Yousseff e seu laboratório de fachada.

Kassab, por sua vez, encontrou nesse desfecho a porta de saída para evitar o confronto com Serra, com o qual justificara sua adesão ao PMDB. Disputará o Senado por ter obtido a garantia de que não teria no ex-governador um concorrente, dado que este até teve sua inscrição para candidato à Câmara homologada na convenção.

Desse modo, quem produziu o conflito foi Serra, o que retira de Kassab qualquer constrangimento que, até então, o obrigava a mudar da calçada em que Serra estivesse. O ex-prefeito, no entanto, reduziu suas chances de vitória, pois concorrerá contra dois pesos eleitorais históricos de São Paulo: o ex-aliado e o senador Eduardo Suplicy, do PT, candidato à reeleição.

Há outros aspectos que somam na escolha do senador Aloysio Nunes para a chapa tucana à presidência. Seu trânsito entre a maioria dos prefeitos do Estado, sua origem serrista, de inegável poder pacificador, seu prestígio eleitoral atestado pela sua última votação – a maior de um senador, com 12 milhões de votos.

Sua biografia de esquerda, com passagem pela luta armada, na mesma organização clandestina que a presidente Dilma Rousseff, é a que menos importa ao eleitor. Tem, no entanto, o poder de neutralizar o discurso ideológico conveniente ao PT, que rotula todos os adversários como conservadores.

Essa manipulação, que visa ao monopólio do pensamento progressista, tem sua fragilidade exposta nas alianças com perfis que compõem a história da direita no país, como os ex-presidentes José Sarney (PMDB) e Fernando Collor (PTB), além daqueles identificados pela trajetória de mãos dadas com a corrupção, simbolizados na figura do ex-deputado Valdemar da Costa Neto (PR), hoje cumprindo pena por condenação do Supremo Tribunal Federal (STF).

A escolha de Ferreira também evidencia a opção pela soma política que resistiu a tentações marqueteiras como a de um nome feminino apenas pelo gênero, sem critério outro, ou a da escolha de um nordestino com o poder mágico de multiplicar a votação do candidato numa região em que não é conhecido.

Para esse último objetivo, aliança não precisa necessariamente passar pela inserção na chapa do líder regional. Basta que ele esteja na aliança e que milite pelo candidato. É o que deve ocorrer com o senador José Agripino, por exemplo, no Rio Grande do Norte.

Aécio fecha essa etapa do processo eleitoral no mesmo cenário em que a presidente Dilma Rousseff sofre baixas claramente determinadas pela percepção política de ex-aliados do aumento de seu risco eleitoral. PTB e PP, um no plano nacional outro no paulista, deram adeus à aliança sem a menor cerimônia, o seguindo inclusive justificando com a perda de perspectiva de ampliar sua bancada na Câmara.

O PSD manteve o compromisso na aliança nacional e, agora, também em São Paulo, ao aderir ao PMDB. Mas, na vida real, o partido está com Aécio, à revelia do seu presidente, Gilberto Kassab, em estados-chave para a eleição, como Minas, Rio, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso do Sul e Piauí.