1. Usuário
Assine o Estadão
assine

A reação populista à derrota

sexta-feira 11/07/14

Não demorou muito, talvez menos do que se podia supor, o recurso do governo ao populismo configurado na proposta de intervenção do Estado no futebol. Depois de flertar com o risco de apostar na seleção, contra todas as evidências a desautorizá-lo, a presidente Dilma Rousseff tenta o discurso mais fácil para se desvincular da derrota […]

Não demorou muito, talvez menos do que se podia supor, o recurso do governo ao populismo configurado na proposta de intervenção do Estado no futebol. Depois de flertar com o risco de apostar na seleção, contra todas as evidências a desautorizá-lo, a presidente Dilma Rousseff tenta o discurso mais fácil para se desvincular da derrota estrondosa.

Melhor teria sido não vincular eleição com seleção, o que fez ao comparar seu estilo de governo ao “padrão Felipão”, ainda saboreando a vitória na Copa das Confederações. Na mesma época, a população pedia “padrão Fifa” para os serviços públicos, reconhecendo a eficiência e sofisticação da entidade máxima do futebol mundial.

Mas Dilma preferiu o outro padrão, que levou à vergonha no estádio “mineirão”. O erro foi tentar surfar na onda ufanista da Copa das Confederações, mas a comparação de seu governo com a gestão do técnico brasileiro, estava certa. São mesmo comparáveis em estilo, efeitos e reação aos maus resultados.

Assim como o governo, o técnico brasileiro já enumerou seus bodes expiatórios, não sem resvalar pelo traço de caráter de boa parcela dos dirigentes brasileiros, que jamais assumem os erros de suas escolhas. Já dividiu os erros com a dupla de olheiros que não recomendaram a escalação desastrosa do jogo fatídico e ainda se disse consciente dos limites com o elenco que tinha em mãos.

Como Felipão no futebol, a presidente recusou diagnósticos consensuais sobre a economia, distanciou-se do setor produtivo, insistiu nas próprias convicções, pondo-as acima das evidências, atribuiu à imprensa comportamento impatriótico e elegeu o pessimismo dos empresários como a causa de seus problemas.

Seria o caso, então, de aplicar ao governo a solução aventada para o futebol, não esbarrasse na impossibilidade de se estatizar o Estado. A mesma CBF que o governo hoje execra, foi sua parceira na condução da Copa. Enquanto estava tudo bem, não havia senões, apesar de farta munição contra os desmandos na entidade, desde a cruzada de Romário até o relatório da turma do Bom Senso Futebol Clube.

É certo que a CBF merece investigação, sobretudo por faturar com símbolos nacionais, mas há caminhos mais razoáveis para se alcançar o que prega o deputado e ex-jogador, entre muitos outros críticos consistentes.

O intervencionismo não ameniza, mas agrava o quadro de desvios no esporte brasileiro, que tem entre suas causas principais, a politização do processo de gestão. Presença do Estado se traduz por influência direta de governos, em um cenário no qual o país se ressente de sua ausência onde deveria estar – e não está.

Casos da infraestrutura, segurança, saúde e educação, para os quais se cobra “padrão Fifa” e não “Felipão”. Menos mal que é discurso, mais um determinado pela conveniência da campanha eleitoral, o que torna sua materialização remota.

Mas reafirma o viés intervencionista do governo, já exibido na questão do direito autoral – este mais absurdo ainda, por não envolver vinculação nem simbólica com o país. Trata-se de relação estritamente privada entre autores e associação arrecadadora, onde o governo resolveu entrar.

Tal como no caso do direito autoral, em que uma CPI inidônea, com um terço de parlamentares proprietários de emissoras de rádio e TV, devedores do escritório de arrecadação, deu pretexto à ação estatizante, uma CPI da CBF será conduzida pela chamada “bancada da bola” – aquela formada pelos parlamentares que mantêm interesses na entidade.

O ministro dos Esportes, Aldo Rebelo (PC do B), diga-se em seu favor, defende uma lei de responsabilidade fiscal para os clubes brasileiros bem antes da Copa e, mesmo, antes de ocupar o cargo.

No entanto, o faz para legitimar uma ajuda financeira aos clubes, indefensável diante do fracasso do paternalismo histórico que marca as relações do Estado com esses entes privados. Os clubes brasileiros já foram alvo de benesses de governos sucessivos, se mostrando reincidentes no comportamento marginal.

Por se tratar de dinheiro público, o novo socorro, em forma de isenções e benefícios múltiplos, precisa ser escorado em garantias que o ministro enxerga na proposta de enquadramento fiscal. Há mais que isso na proposta de Aldo, mas o ponto de partida é esse e sem ele não se viabiliza o resto.

O ministro quer alcançar o grau de gestão profissionalizada dos clubes, a exemplo do que ocorre no ambiente europeu, do qual a Alemanha é, hoje, o exemplo mais recente de reforma exitosa, iniciada após os revezes em copas do Mundo.

Talvez seja esse o limite da participação do Estado no processo, o que o torna um condutor das mudanças, porém jamais gestor de um negócio privado, onde proibir a transferência de jogadores para o exterior, surge como blasfêmia.

As condições para a permanência do jogador brasileiro no país devem ser asseguradas pela criação de um ambiente econômico que a viabilize e não por decreto.