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João Bosco Rabello

24 Outubro 2011 | 12h13

Um fato não deixa de ser fato por ser velho. Assim como uma denúncia não é necessariamente mentirosa porque seu autor tem ficha comprometedora.

Até porque nada mais velho que a corrupção e as delações decisivas para desbaratar quadrilhas,  geralmente produzidas por gente diretamente envolvida e contrariada na partilha do butim.

Para ficar na história mais recente, foi assim que se descobriu o mensalão do PT e, na seqüência, o esquema de corrupção no governo do DEM, em Brasília, ao qual o PT agora dá curso.

Os escândalos nos ministérios dos Transportes, Agricultura e Turismo, não eram desconhecidos, mas negligenciados. Quando vieram à tona em seus detalhes, a notícia original era velha. E daí, se eram verdadeiras?

Velha também é a impunidade no Brasil e, nem por isso, é falsa.

A tese da desqualificação do denunciante, se vigorar para efeito de sua nulidade, não deveria considerar as denúncias do delegado Durval Barbosa. É de se imaginar que sem os vídeos espantosos que exibiu, Durval virasse antídoto à sua própria denúncia, pela ficha corrida que tem.

A questão é outra: por que governantes se associam a figuras tão menores e de inidoneidade tão ostensiva? Porque são esses elementos que se dispõem a cumplicidades contra o erário, cabendo-lhes a parte de risco da operação.  O problema é que depois cobram.

Por mais que o PC do B jorre uma indignação teatral, invocando sua história, é preciso que se diga que é o partido que a joga na sarjeta ao desviar dinheiro público.

A imprensa é mensageira. Acusá-la de promover uma histeria porque publica fatos é recurso desgastado que iguala o PC do B ao PT na tentativa de controle da informação.

E o fato é que um soldado da PM, João Dias Ferreira, prestou um depoimento à revista Veja em que se diz testemunha e vítima de um esquema de desvio de verbas públicas através de convênios do ministério dos Esportes com ONGs fantasmas.

O novo é o depoimento. O velho é o esquema, já denunciado pelo Estadão em fevereiro último numa série de 10 reportagens em que, além de comprovar a existências desses convênios e dessas ONGs de fachada, mostrava que os contratos não geraram os resultados de sua finalidade.

O soldado Ferreira é o Durval da vez, menos documentado (mas não totalmente como mostra a revista em sua edição última). Foi justamente quando se viu entregue à própria sorte pelos companheiros do bando, à mercê da Justiça, que resolveu abrir a boca.

Ao fazê-lo, impôs à cúpula do ministério que desmentisse ofício entregue ao comando de sua corporação, a PM, dando conta de apropriação de R$ 3 milhões do programa. O que foi feito inclusive com falsificação da data. A conversa em que isso é acertado está gravada e, agora, publicada pela revista.

Trata-se da cúpula ministerial, aquela que divide o comando da Pasta com o titular, no caso, Orlando Silva. Ela executa o decidido.

Pois essa mesma cúpula, enquanto o ministro negava em depoimento ao Senado qualquer envolvimento com o esquema, tratava de renovar um convênio fraudulento.

O mesmo convênio, de R$ 911 mil, que o ministro prometera cancelar em fevereiro, quando o Estadão abriu espaço para que desse a sua versão dos fatos. Reconheceu que o convênio sequer aparara a grama para a construção de um campo de futebol na cidade-satélite do Gama, objeto do contrato.

A estratégia de defesa do ministro é a de centralizar a discussão na denúncia do soldado, cobrando provas, como se mais precisasse. Mas o crime é muito maior.

No ministério, desde a gestão de Agnelo Queiroz, funciona uma rede do PC do B, destinatária das verbas do programa Segundo Tempo, de inclusão social de jovens, através do esporte.

Essa rede opera através de ONGs – uma delas, é importante que se repita, da mulher do ministro -, cuja função é distribuir as verbas dentro de um organograma partidário, sem qualquer compromisso com a realização dos projetos para os quais elas foram autorizadas.

É desse imenso desvio que o ministro Orlando Silva é responsável na condição de titular da Pasta e que, em qualquer país sério, já seria suficiente para sua demissão.

E o que fez o PC do B? Reagiu ameaçando o governo do PT de revelar os podres do governador Agnelo Queiroz (hoje PT, ontem PC do B), o que equivaleria a dar-lhe destino igual ao de seu antecessor, José Roberto Arruda.

Como se vê, o PC do B faz com Agnelo o que o soldado Ferreira fez com o ministro Orlando Silva.

Ou seja, se o governo conseguir sustentar Silva no cargo, o governador Agnelo pode respirar aliviado: pelo menos no que depender do partido e do ministro sócio, seus segredos e mistérios continuarão preservados.

O PC do B finge arrepios ao ouvir que hoje em nada difere do PR de Valdemar da Costa Neto.

Mas é a mais pura verdade.

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