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A farsa de Vargas e do PT

João Bosco Rabello

27 maio 2014 | 16:01

Sabe-se agora (O Globo, 27/05/2014) que o pedido de cassação por infidelidade partidária que o PT encaminhou à Justiça Eleitoral contra o deputado André Vargas ((PR), foi  encomendado pelo próprio parlamentar ao partido.

É, sem dúvida, uma demonstração de como o arsenal de truques da política brasileira parece inesgotável. Um ato do partido, de aparente coerência, esconde uma artimanha que o torna cúmplice do ex-filiado na estratégia de livrá-lo da inelegibilidade que a cassação pela Comissão de ética imporia por inseri-lo na Lei da Ficha limpa.

Durou pouco a encenação de virtuosismo do PT, que ensaiou uma reação ao comportamento comprometedor do deputado, pedindo publicamente que renunciasse e apoiando seu julgamento pela Câmara, depois de flagrado em tráfico de influência com o doleiro Alberto Yousseff.

O episódio ilustra ainda a dificuldade do partido em punir seus filiados, o que o faz cúmplice do mau comportamento destes. A solidariedade aos condenados pelo mensalão se estende até hoje, a reforçar o apoio do partido à série de operações ilegais que resultou na prisão de quadros importantes da legenda.

Vargas se juntou a Yousseff, cujas digitais estão também nos escândalos da Petrobrás, para favorecer um laboratório de fachada – o Labogen -, na obtenção de contrato milionário com o ministério da Saúde.

Yousseff está preso sob as acusações de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas, com recursos desviados de órgãos públicos, segundo a Polícia Federal. Desde então, Vargas esperneia contra os fatos.

O deputado é um dos baluartes da campanha contra a imprensa, depositária de todos os males que o partido purga pelos seus próprios atos. O que veio à tona mostra que ele tem razões pessoais de sobra para detestar a publicidade.

Somado ao caso mais recente do deputado estadual Luis Moura (SP), o PT começa a acumular um passivo que o situa não mais no terreno dos delitos que tenta associar às ações políticas, mas na porta dos presídios.

Moura participou de reuniões com mais de dez manifestantes vinculados ao PCC, envolvidos no movimento grevista estadual, e teve sua campanha financiada, em parte, pelo deputado Jilmar Tatto PT-) secretário municipal de Transportes da gestão de Fernando Haddad.

O mais incrível, porém, é que Moura foi condenado por assalto à mão armada em 1991, fugiu da prisão e permaneceu por uma década na condição de foragido da justiça. Como chegou a deputado estadual com esse currículo – e nessa circunstância, é mistério.

Moura e Vargas têm trajetórias invertidas: o primeiro saiu do crime para o mandato; o segundo, o contrário. Ambos permanecem sob a proteção do PT, que parece não se dar conta do passivo que acumula nesse campo no momento em que o país exibe toda a sua intolerância com a classe política.