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A busca da racionalidade

João Bosco Rabello

14 agosto 2014 | 15:52

Passadas as primeiras horas do acidente aéreo que vitimou o ex-governador Eduardo Campos ainda é a perplexidade que prevalece no ambiente político. Além da consternação, as preocupações com os procedimentos de despedida ocupam aliados e adversários se dividem entre a preparação para os rituais e as avaliações sobre as consequências políticas do episódio.

Nesse sentido, pode-se dizer que as opiniões ainda estão contaminadas pelo impacto da morte do ex-governador. Aos poucos, porém, a tendência será a de olhar com racionalidade as circunstâncias, o que se for feito com razoável senso eleitoral, indicará o caminho para a consolidação de Marina Silva como candidata da aliança PSB/Rede.

É uma decisão eleitoral óbvia, já que a ex-senadora respondia pela ascensão de Campos nas pesquisas. E, quando a consulta o excluía, os índices da aliança subiam ainda mais. Assim, as contas fecham de forma positiva se Marina substituí-lo na candidatura, ampliando as chances de um segundo turno até mesmo sem a presidente Dilma Rousseff.

No entanto, a análise estritamente política, excluída a visão eleitoral, mostra um cenário bem diverso. Marina candidata, a aliança terá a supremacia da Rede, invertendo a situação que a originou, em que o PSB a abrigou na legenda após a derrota no Tribunal Superior Eleitoral, que negou registro ao seu partido.

Ajuda a reflexão nesse momento a memória do discurso de Marina e Campos quando do anúncio da aliança com a qual surpreenderam o mundo político. Ali, ambos estabeleceram como prioridade interromper o ciclo do PT no poder que, se continuado, somará 16 anos. Uma meta que justificou união tão imprevisível e de complexa administração política.

Se a meta sobreviver à morte de Campos, a ascensão de Marina a candidata em seu lugar, deverá ser pacífica, deixando-se para depois das eleições os movimentos seguintes. É sedutora a perspectiva de crescimento da ex-senadora, em um cenário em que a adversidade não subtrai, mas soma. Marina ameaça igualmente as posições de Dilma Rousseff e Aécio Neves.

Para a maioria dos cientistas políticos que se manifestaram nas últimas horas, a continuidade da candidatura da aliança PSB/Rede, com Marina, é garantia definitiva de segundo turno, com redução do avanço de Aécio Neves e possivelmente de Dilma. Esta, teria reduzidíssimas, senão anuladas, suas chances de resgatar o voto dos descontentes com a política e os políticos, que se manifestaram em junho de 2013 nas ruas.

Há até quem arrisque um cenário com Marina e Aécio Neves em um segundo turno, com a ex-senadora embalada pela sucessão de um candidato que, como ela, representava a alternativa “a isso tudo que está aí”, morto em circunstâncias trágicas, o que alimenta a mitologia de heróis políticos.

Esse raciocínio é estimulante para os integrantes da aliança porque o crescimento de Marina se daria com maior ênfase na região sudeste, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, onde a candidata governista à reeleição perde terreno de forma consistente e onde o avanço de Aécio desconhecia Eduardo Campos.

O PSB está numa encruzilhada impossível de constar em qualquer previsão política. A morte é o único fator imponderável ausente das análises políticas, mesmo quando a idade do candidato já é avançada, caso do avô de Aécio, o presidente eleito e não empossado, Tancredo Neves, de quem jamais se suspeitara vencido pela doença.

O partido não tem liderança interna capaz de ocupar o lugar de Campos e reconstruir a aliança com supremacia sobre a Rede. Não tem esse líder nem mesmo para enfrentar uma eleição. Não tem, portanto, como operar com o prazo curto imposto pelas circunstâncias, uma solução que não seja a de homologar Marina.

A outra alternativa, de desistir da candidatura e se dividir entre Dilma e Aécio, seria abandonar a racionalidade, o que em política jamais levou a vitórias. O PSB , a rigor, precisará se impor a meta de substituir Campos na administração das divergências internas com a Rede e impor também esse ônus à ex-senadora, que será desafiada a fazer política partidária, ainda que sem abandonar seus princípios pessoais.

O mais provável é que prevaleça a racionalidade e Marina Silva , por vias que jamais imaginou, surja a candidata que a justiça eleitoral inviabilizou ao privilegiar a visão burocrática em detrimento da política ao negar o registro da Rede.