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Política

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Humberto Dantas

07 Março 2016 | 08h18

O Rio Grande do Norte, terra de minha esposa e de parte dos meus antepassados maternos, destino de muitas de minhas férias desde 1978, tem o dom de me impressionar em diferentes sentidos e intensidades. Positivamente fiquei motivado quando vi a reação de parte da classe média à explosão de um escândalo associado a um cartel de combustíveis faz alguns anos. As ações, a criatividade e a adesão foram marcantes. A despeito de ter ou não dado certo, parte da sociedade se mobilizou de forma magnífica contra os postos e seus preços abusivos.

Negativamente me incomoda demais a proximidade das elites. Todo mundo conhece todo mundo, e num país patrimonialista isso só pode resultar em aberrações. Em 2014, numa passagem pela minha casa, meu cunhado se surpreendia com o grau de intensidade dos ataques nas eleições estaduais paulistas. O contraponto era claro: no Rio Grande do Norte parte expressiva das elites se conhece, se cruza, parece gerar um ar de dependência à coisa pública que inviabiliza conflitos em algo que explicaria bem o conceito de cordialidade de Sérgio Buarque de Holanda. Quando o falecido político “João do Coração”, preso acusado por corrupção, lançou um livro dizendo perdoar o Ministério Público pela sua detenção eu logo escrevi uma resenha da obra amaldiçoando o baixo nível da patética publicação e seus absurdos argumentos. Minutos depois, numa festa em Natal, amigos comentavam a ousadia do texto. Resumo da ópera: é tudo muito diferente e pouco republicano. Por isso quando um ex-aluno e amigo do Insper me convidou para palpitar sobre o Partido Novo no estado logo desconfiei do choque entre os valores liberais e republicanos da legenda nascente em contato com a realidade estadual – que vai muito além do Rio Grande do Norte, mas que por lá se acentua às vistas grossas. Como pensar em reduzir o papel do estado no Rio Grande do Norte se parte expressiva da elite local – econômica, política, intelectual e empresarial – depende do Estado? E das formas mais estranhas.

É essa estranheza de valores, tão infelizmente comum à nossa realidade, que resultou em mais um bizarro escândalo envolvendo o estado. Aqui, mais uma vez, me surpreendo negativa e positivamente. Os fatos negativos são assombrosos. A Assembleia Legislativa estadual inaugurou um portal de transparência. Pelo ambiente é possível baixar mensalmente a lista de servidores públicos da repartição parlamentar. O primeiro dado bizarro: exceção feita aos inativos a casa tem mais de três mil servidores pendurados em sua folha de pagamento. O mesmo exercício feito na Assembleia Legislativa de São Paulo oferta como resultado um valor muito próximo. Tudo aparentemente normal se o Legislativo potiguar não tivesse 24 deputados estaduais e o paulista 94 – quase quatro vezes mais. Sequer estou entrando no mérito dos exageros bandeirantes, absolutamente merecedores de profundas críticas, mas pelo visto há lugares bem mais preocupantes. Também não me aterei em compreender detalhadamente os resultados: apenas fiz num portal a mesma coisa que realizei no outro, a saber, puxei a lista de servidores.

Mas o que era ruim pode piorar. No Rio Grande do Norte as elites que dependem tanto do Estado carregam de figuras tradicionais, de membros das famílias mais abastadas, o quadro de servidores locais. Uma enxurrada de sobrenomes pomposos infesta a lista – óbvio que os Dantas, infelizmente, estão lá. E muitos deles sequer são vistos no local. Pra completar: laranjas ocupam posições. Nas redes sociais um desses sanguessugas defende a ideia “natural” de que apenas emprestou, como gesto comum, o nome para seu pai. Como assim? Simples: o pai presta serviços a um deputado, e o parlamentar não tem como remunerá-lo. O filho querido e prestativo cede o nome ao macho dominante da família para que tudo se acerte em uma contratação no gabinete. “Eita painho! Como lhe negar um favorzinho desses!”  O gesto do servidor-solidário gerou o movimento “Cala a Boca Sandoval!”. Ele foi exonerado, mas há quem diga que arrumaram um jeito novo de painho “trabalhar”. Pra requintar de crueldade o ambiente: o deputado que recebe os serviços é constantemente visto em movimentos contra a corrupção no governo federal, em atitude ao estilo “nos olhos dos outros é refresco” ou “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Ademais, na relação da ALERN foram encontrados alguns jornalistas que vivem da tarefa de relatar a vida social do estado, sempre misturada com a “credibilidade” da análise política. Seria um gesto desesperado pra garantir a sobrevivência num mercado esgarçado? Pode até ser que sim, mas a ética jornalística se esvai, transformando parte desses profissionais em verdadeiros cães de guarda dos políticos que os empregam no poder público e nas empresas jornalísticas. Isso por sinal é bem comum no Rio Grande do Norte: trata-se, de acordo com um estudo feito faz alguns anos pela Transparência Brasil, de um dos estados em que existe maior cruzamento entre elites políticas e donos dos meios de comunicação. E há quem considere tenebroso qualquer debate sobre mídia no Brasil.

Por fim, na lista sobram profissionais que se dedicam a outras atividades e assombram a folha de pagamento. Assombram? É isso mesmo: assombram, pois o verbo está associado à existência de funcionários fantasmas. Práticas de nepotismo cruzado, troca de favores e tudo o mais se mostrando de maneira mais ou menos escancarada.

Positivamente, no entanto, contra os fantasmas, bruxas e coisas do tipo a sociedade local resolveu exorcizar geral. A imprensa local, por razões óbvias destacadas acima, está em relativo silêncio. Pouco se noticia e muitos já tentam se defender em explanações ridículas. Em vão. É indefensável. Restaria esperar algo da justiça, mas não faltam familiares do Judiciário pendurados na folha. Tem até esposa de desembargador que responde por processo de humilhação contra cidadão comum, em vídeo que se espalhou pelas redes, pendurada na lista e sonhando em ser prefeita de uma cidade qualquer! Assim: o que fazer? Apontar o dedo e viralizar. As redes sociais têm servido de universo para acusações dos mais diferentes tipos – algumas inverídicas e exageradas. Mas infelizmente a reação da ALERN é lenta. Prometem exonerar 20% dos servidores, atestando que são verdadeiros penduricalhos da eterna elite dependente, mas cidadãos atentos dizem que 10 funcionários, apenas 10, foram exonerados no início das acusações e nove já foram recontratados. Verdade? Mentira? Nesse instante difícil dizer no que é possível crer. E só uma coisa é certa: as elites patrimonialistas estão ativas e parcelas da sociedade buscam combater, indignadas, tais práticas abusivas. O problema é entender até onde vai essa defesa e a partir de onde ela se esvai quando se choca com questões familiares, encontros de amigos, reuniões, confrarias etc.

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