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Você tem fome de quê?

Humberto Dantas

segunda-feira 11/08/14 08:04

Um prefeito é cassado pelo Judiciário junto com o seu vice. O problema está associado a questões eleitorais. Em junho de 2014 o portal UOL dizia que a cassação era definitiva. Mas é claro que todo brasileiro conhece jargões que, apesar de democráticos, relativizam a sensação de justiça. E reforçam a lógica de impunidade. Lá vamos nós sentir novamente o odor da instabilidade, em frases do tipo “cabe recurso”, “entrou com um mandado”, “aguarda julgamento”, “mandado de segurança” que entopem o noticiário, carregam de dúvidas alguns cenários e findam reforçando máximas contrárias ao bom funcionamento das leis. Junte tudo isso à sede que alguns têm pelo poder, ou se preferir à fome. Você vai entender porque trocamos as palavras aqui.

 

Americana, cidade próspera e importante do interior de São Paulo fica grudada em Campinas. Meu pai faleceu por lá, mas isso não é um diário de família. O que importa é que o prefeito, ou ex-prefeito, ou ex-futuro-ex-prefeito, ou ex-quase-secretário, andou sofrendo acusações e afastamentos. O jovem Diego De Nadai (PSDB) foi cassado acusado de abuso do poder econômico e de ter feito caixa dois em sua campanha. Pausa. Tá vendo? Caixa dois pune, apesar de um ex-presidente da República, em tempos recentes, ter afirmado que hipocrisia é imaginar que isso não exista nas campanhas. Mas voltemos à Americana.

 

De Nadai perdeu o cargo, e junto com ele o seu vice: Seme Callil. De qual partido? PSB. Pausa. Coerência estadual, uma chapa ao estilo Alckmin-França 2014. Pois bem, voltemos: no caso americanense o caixa dois os tirou do posto. E o que ocorre a partir de então? Simples: assumiu o presidente da Câmara Municipal e novas eleições devem ser convocadas em 90 dias. Simples assim. Ou não tão simples, afinal de contas, o definitivo foi revogado (lembrando, inclusive, um senador paulista que revogou o irrevogável) e De Nadai voltou ao poder. Voltou, mas espere um pouco, pois o caso é mais complexo.

 

Em semestre de eleições ordinárias, como esse que estamos vivendo, não pode ocorrer eleição suplementar, dizem as “regras gerais”. E agora? O presidente da Câmara fica lá plantado como prefeito quase um ano? Ele não teria vantagem sobre os demais no momento do novo pleito se for o candidato? E o que é mais desvantagem: dar vantagem ao presidente ou devolver um condenado para a prefeitura? A resposta, certamente, será dada em brilhante argumentação da justiça eleitoral – a despeito de o jornal O Liberal mostrar que De Nadai responde a nove processos por improbidade administrativa no Tribunal de Justiça de São Paulo. Enquanto isso, nos poucos dias em que ficou no poder, e possivelmente nos próximos em que ainda pode voltar a ficar, Paulo Chocolate (PSC), o presidente da Câmara. Pausa. Entendeu porque trocar sede por fome? Chocolate! Veja só. Chocolate assumiu em meados do ano. Em 90 dias deveriam ocorrer eleições que não podem ocorrer. Sua primeira declaração foi dizer, então, que colocaria De Nadai como seu secretário. Pausa. Como é? Um prefeito é cassado e vira secretário do interino? Legalmente isso é possível, apesar da aparente imoralidade. A despeito das razões, no entanto, parece que a ideia morreu. Entre a cassação e a posse tivemos quase um mês de debates. Conversa vai, conversa vem, e Chocolate trocou secretários. Esqueceu o plano de empossar De Nadai, e a polêmica passou para a nomeação de um secretário natural de Paulínia. Os vereadores ficaram bravos com o ex-atual-futuro-colega vereador Chocolate, dizendo ser absurda a nomeação de um “forasteiro”. O problema, no entanto, está momentânea e aparentemente resolvido: De Nadai está de volta ao poder. Até quando? Até a justiça sair do recesso, e já saiu, e tomar nova decisão. Que já pode ter sido tomada. Mas qual decisão? E você acha que nós sabemos? Mas para apimentar o cenário, afinal de contas chocolate com pimenta foi até nome de novela, fica a questão: se De Nadai foi cassado por abuso de poder econômico o que fazer com as dezenas de vereadores financiados por sua campanha? Isso a justiça não pune? Paulo Chocolate, por exemplo, abocanhou um cacau: mais de R$ 760. E fica por isso mesmo? Parece que nesse caso: sim.