Vereadores que não se enxergam - Humberto Dantas
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Vereadores que não se enxergam

Eder Brito

27 maio 2015 | 11:43

Entrei no salão e ainda estava vazio. Aos poucos, as cadeiras foram sendo tomadas por vereadores e prefeitos. Mesmo que não tivesse sido avisado previamente pela organização do evento a respeito da composição da plateia, seria possível desconfiar que eram pessoas ligadas à política. Além do tipo de papo que começava a tomar conta das rodas de conversa, há uma coisa na postura do político brasileiro que o torna potencialmente reconhecível em situações e eventos como esse. São indicadores ambulantes da profissão que representam. Corro o risco de soar preconceituoso ao tentar verbalizar, mas é um jeito de se portar, de se dirigir aos presentes, de cumprimentar olhando nos olhos, de fazer questão de ser percebido por todos e de tentar transformar meros cumprimentos formais em tentativas ousadas de gerar empatia automática. Uma série de pequenos detalhes que me confirmavam: naquele momento eu estava rodeado por homens públicos. Infelizmente a escolha pelo gênero masculino para descrever a ocupação não é só um machismo involuntário. São mesmo poucas as mulheres neste tipo de evento. Isso, infelizmente, não é surpreendente. E também infelizmente é pauta para muitas outras conversas e textos.

Quando estavam todos devidamente acomodados, o mestre de cerimônias anunciou a palestra e comecei a falar. Senti um misto de orgulho e medo, pois me vi em frente a um grupo claramente experiente, daqueles que você já julga automaticamente incrédulo perante tudo o que se tem a apresentar. Ia falar a respeito do que eles vivem diariamente e, apesar de também ter recebido minha carga de experiência e realismo na gestão municipal, é sempre complicado parecer um ditador de regras perante uma plateia como aquela. Felizmente, tudo transcorreu de forma tranquila e encontrei a empatia de muitos por ali. Mas, no final das contas, foi outra coisa que me incomodou demais, o tempo inteiro durante a fala: percebi que alguns vereadores não sabem se portar em eventos públicos.

Não estou falando de etiqueta, protocolo ou cerimonial público, conforme manda a regra (e até legislação em alguns casos). Estou falando daquela capacidade que alguns seres humanos não possuem, de perceberem quando se portam de maneira indevida, chata e incômoda em público. Tenho uma raiva estranha, incontrolavelmente irracional, por exemplo, de pessoas que param nas calçadas e não percebem quando estão travando o fluxo. Ou do motorista que estaciona o carro em frente a um prédio e não percebe que está bloqueando a saída de outros veículos, enquanto alguém não o avisa. Chamo esses seres de “pessoas que não se percebem”. Eles vivem completamente envoltos em sua própria realidade e sua realidade é tudo que lhes basta. A interação com o outro é uma mera formalidade que ocorre esporadicamente. É um mero prazer que o restante dos mortais tem, ao acessarem o lugar especial daquele ser, de vez em quando, quando ele percebe que é hora de permitir que alguém interaja.

No dia daquela palestra, incomodou-me principalmente a postura de um vereador da cidade de Miracatu-SP. Falei durante uma hora. Neste período, ele atendeu o celular quatro vezes. Nas quatro vezes, a campainha ressoou alto, daquele jeito constrangedor que faria qualquer ser humano explodir de vergonha e culpa. Mas o fato de ter tocado uma primeira vez não fez com que ele colocasse o celular no modo vibratório. Nem mesmo baixou o volume do troço. Nas quatro vezes, atendia o celular de onde estava, sentado na terceira fileira, à minha frente. Dizia “Estou em um evento aqui em São Paulo”, como se estivesse sozinho no toalete de sua residência. Na primeira vez, travei a fala, pois o volume da conversa era tão alto que imaginei estar recebendo alguma pergunta ou aviso do participante. Não estava. Ele apenas avisara a pessoa do outro lado da linha a respeito de algum assunto a ser resolvido pós-almoço. A postura se repetiu durante as outras três ligações, igualmente incômodas. Não havia o que fazer, a não ser esboçar aquele sorrisinho constrangedor de canto de boca que a gente utiliza nas situações em que proferir palavrões pode ser estranho. Foi ridículo.

Ao final do evento, ele foi apresentado aos presentes. Era Presidente da Câmara daquele município e estava ali para receber um prêmio. Na hora da foto, ficou quietinho e sorriu. Tive vontade de passar correndo na frente, fazer “chifrinho” nele ou soltar uma piada sem graça em voz alta, só para contribuir com o mesmo tipo de clima constrangedor. Mas me percebi. Calei a boca. Enquanto silenciava, pensei que era muito estranho saber que alguém com aquela sensibilidade, percepção, capacidade de escuta e de respeito à presença alheia seja o escolhido para comandar a Câmara Municipal de um município inteiro.

Finalizada a palestra e a entrega de prêmios, um outro vereador, da cidade de Cajuru-SP pediu a palavra ao mestre de cerimônias. Pegou o microfone e começou. “Jesus Cristo foi um grande homem. Fez apenas o bem, curou doentes, ajudou os pobres. Só fez coisas boas. E olha o que fizeram com ele. Imagina como é que esse povo trata a gente. Obrigado. Bom almoço!”.

Alguns não se percebem. Outros se percebem como mártires incompreendidos. E assim segue a vida de nossas Câmaras Municipais.

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