Transição

Eder Brito

07 Dezembro 2016 | 20h11

A sala de aula estava cheia. Das 30 pessoas que ocupavam o local, 10 eram Prefeitos recém-eleitos, homens corajosos que assumiram a missão de coordenar o executivo em pequenas cidades do interior. Desafio complexo, já que, historicamente, a realidade tem mostrado o quanto as Prefeituras dependem de transferências da União e do Governo dos Estados para conseguirem funcionar e cumprirem de verdade suas obrigações constitucionais.

 

O tema da aula era importante e talvez por isso tenha atraído tantas lideranças simultaneamente: transição de governo. Tão importante quanto o programa de governo vitorioso nas urnas e tão essencial quanto as metas que serão construídas a partir de janeiro de 2017 são os processos de transição. Diagnosticar e compreender o atual status dos municípios que assumirão é tarefa primordial para esses prefeitos (uso o gênero masculino porque só haviam homens eleitos ali). Fazer a transição de maneira republicana e profissional significa não impactar a vida das pessoas que dependem da continuidade de serviços e políticas públicas.

 

Os bons processos de transição precisam de muito diálogo, mas também de relatórios bem estruturados, instrumentos e metodologias que ajudem a captar muita informação, informação de qualidade, em um curto espaço de tempo. Além da difícil tarefa de lidar com as intempéries e diferenças político-partidárias que às vezes se colocam como obstáculos nesse caso. Estamos presenciando bons exemplos de transição democrática, como os emblemáticos casos da cidade de São Paulo, em que Dória e Haddad parecem estar imprimindo um bom ritmo. Donald Trump e Barack Obama, apesar dos óbvios posicionamentos ideológicos distintos em vários sentidos, parecem também ter encontrado um ritmo que respeita a democracia necessária para o processo.

 

Foi sobre isso que r estudaram os prefeitos naquele dia que presenciei. Ao final de um produtivo dia, no entanto, fui abordado por um dos profissionais da equipe de uma cidade. O rapaz se preparava para assumir a rotina contábil de uma pequena prefeitura. Calado durante todo o período, preferiu não compartilhar suas frustrações com o restante do grupo. Mas falando comigo abriu o coração, de forma bem ansiosa.

 

Relatou toda a sua dificuldade em conseguir informações do atual governo, cujo grupo político é adversário do Prefeito que assumirá em janeiro. Falou de como era impossível sentir-se seguro sem poder contar com o auxílio do atual contador da Prefeitura, que tinha orientações claras de não compartilhar nada, para não “ajudar” o novo Prefeito. O mais engraçado é que o atual contador, que deixa o cargo dia 31 de dezembro de 2016… é sogro do novo contador que assumirá a posição em 1º de janeiro de 2017.

 

Óbvio que preservei o nome do sujeito e o nome da cidade para não abusar da confiança e não expor desnecessariamente um profissional. E a intenção não é julgar um município específico. Inclusive porque, infelizmente, creio que esse caso não é um caso isolado. O objetivo é perguntar: quantos municípios estão passando por situação semelhante? Se até entre familiares, existe dificuldade de compartilhar informações públicas essenciais para realizar transições responsáveis, como estarão se comportando outros municípios, com o mesmo clima de “guerra”, na disputa entre grupos políticos adversários na transição? Como fazer com que a mágoa da derrota eleitoral não se transforme em empecilho para a gestão pública? O que fazer para a vaidade de um não influencie o resultado do que é de todos, para todos?