Senhora? Senhora!??

Eder Brito

14 Outubro 2015 | 07h00

Não vou mentir: trabalhando para uma Prefeitura, sempre achei extremamente chato e irritante ter que fazer um procedimento chamado recadastramento anual. Achava meio ofensivo ter que provar que existo. “Será que a administração não percebe meu trabalho? Não conseguem enxergar que estou aqui todo santo dia, trabalhando sem parar?”. Eram esses alguns dos meus pensamentos cada vez que precisava enfrentar o dito cujo. Mas não adiantava. Lá estava eu, todo ano, tendo que mostrar a cara e reafirmar minha existência. Arrisco-me a dizer que esse procedimento é recorrente em muitas prefeituras. Mas o que me irritava mesmo era saber que aquilo não serviria para evitar o que a administração realmente temia originalmente: funcionários fantasmas.

A Senhora, funcionária da Assembleia Legislativa de Goiás, já nacionalmente famosa, não deixaria de ser um funcionário fantasma só por conta desse procedimento, por exemplo. Precisaria apenas ter que comparecer para o recadastramento uma vez por ano, do mesmo jeito que aparecia diariamente para bater o ponto e desaparecer na sequência. Também não funcionou em Cerro Negro, Santa Catarina, onde um agricultor aparecia na folha de pagamento da Prefeitura como gestor de projetos esportivos, mas passava a semana inteira em seu sítio. Foi exonerado em agosto desse ano, quando o Ministério Público fechou o cerco por lá.

O recadastramento também não funcionaria para evitar o que aconteceu no município de Taipas, Tocantins, já que era a própria Secretária de Administração da Prefeitura que ajudava a manter fantasmas na folha. Ela nomeou um monte de “senhoras”: a mãe, a irmã, sua cabeleireira e até sua manicure. A fraude durou mais de um ano, foi descoberta e a ex-secretária foi para a cadeia em julho de 2015. Na mesma Assembleia Legislativa de Goiás, famosa pelo caso da Senhora corredora, um outro funcionário fantasma foi exonerado recentemente, também em julho. Era um padre que, longe do serviço há muito tempo, desde sua ordenação como sacerdote, continuava recebendo salário. Ainda admitiu publicamente que usava o dinheiro (público) para fazer caridade.

Não são procedimentos ineficazes e quase inocentes como o recadastramento que vão manter Prefeituras e outros órgãos públicos livres desse male. Não é acaso que todos os fantasmas descobertos surgem da atuação da imprensa ou de órgãos de controle como o Ministério Público. É do bom senso de cada servidor público e agente político, do interesse e dedicação de cada cidadão curioso, de cada repórter verdadeiramente profissional que nasce a valorização dos princípios republicanos. É o primeiro passo para inibir o surgimento dessas “assombrações”. Mas ainda precisamos correr atrás de muitas senhoras e senhores para que esse espírito de cuidado e fiscalização sejam a regra e não a exceção.