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Sabinada

Eder Brito

13 agosto 2014 | 10:46

Em maio deste ano tive a oportunidade de ministrar palestras para alunos de uma escola estadual na região central de São Paulo. Foram cinco turmas, com mais ou menos 200 estudantes, todos alunos de sétima e oitava série do ensino fundamental. O tema do papo estava em forma de pergunta: “O que você tem a ver com a corrupção?”. Em uma dessas dinâmicas rápidas de aquecimento, a criançada tinha de responder a perguntas como “O que é corrupção?” e “O que são pessoas corruptas?”. A grande maioria falava de política e de pessoas que ocupam cargos políticos.

Lembremos que a classe era composta por adolescentes de 12 e 13 anos de idade, em média. O mesmo grupo de adolescentes, durante o mesmo encontro, era convidado a raciocinar sobre questões do dia-a-dia. O que você faria se encontrasse dinheiro na rua? “Colar” na prova é um ato normal? Devolveria o dinheiro se percebesse que o “tio da cantina” te deu troco errado? É correto estacionar seu veículo em vaga de idoso no shopping se for algo rapidinho? Estas eram algumas das perguntas direcionadas ao grupo, um convite ao raciocínio de forma muito simplória. Alguns saíram de lá claramente incomodados e desapontados, afinal em nenhum momento eu havia “ensinado” o que eles deveriam fazer para punir políticos. Outros saíram com cara de descrença e de “Sério? É só isso?”. Alguns até verbalizaram como eu tinha sido chato, com tantas sugestões de posturas caretas perante situações corriqueiras da vida. Lembro de uns 5 ou 6 alunos que realmente demonstraram entender minha intenção e me fizeram sair de lá com esperança. Tenho certeza que ainda preciso melhorar muito a minha metodologia, deixar o meu discurso mais acessível para crianças e adolescentes. Mas tenho certeza que o caminho é por ali e que apenas uma palestra por ano não resolve, é óbvio.

Daí eu acordei um dia e vi que a cidade de Sabino, município do interior de São Paulo teve 6 dos seus 9 vereadores cassados. Eles foram acusados pela Justiça Eleitoral de comprar votos durante o pleito de 2012. O Prefeito eleito naquele ano, integrante da mesma coligação dos cassados, já havia perdido o mandato em janeiro de 2013, poucos dias depois de assumir, sob a mesma acusação.

Uma das regras mais básicas do mundo comercial é a lei da oferta e da demanda. Só há possibilidade de comprar quando há pessoas interessadas em vender e vice-versa. O Prefeito, o vice-prefeito de Sabino e os seis vereadores cassados movimentaram um esquema que comprou o voto de pelo menos 1,5 mil eleitores daquele município. No caso de Sabino, segundo apurou a Justiça Eleitoral, o preço de cada voto variava entre R$ 100,00, combustível, remédios e cestas básicas. Havia um esquema rígido de controle, que incluía até a retenção do comprovante de votação do eleitor.

Agora pesquise rapidamente e veja que Sabino é um município de 5 mil habitantes. Pesquise ainda mais a fundo e veja que no pleito de 2012, a cidade teve 2032 votos válidos e descubra o assustador percentual de sabinenses dispostos a entrar neste mercado eleitoral. Daí você vai mais a fundo ainda e imagina que isso só pode ter acontecido em uma cidade pobre, com uma população desorientada e sem formação. Impressione-se ao saber que o IDH (Índice de desenvolvimento humano, utilizado para medir a qualidade de vida em um determinado território) de Sabino está acima da média nacional. E veja ainda que se considerarmos o IDH-M Educação, uma parte do índice que olha apenas para esta dimensão, o município tem um nível equivalente aos municípios que estão no topo do ranking brasileiro, como São Caetano do Sul-SP, por exemplo.

Precisamos de uma nova revolução. Proponho uma nova Sabinada, em substituição à revolução de mesmo nome (e objetivos distintos) que ocorreu à época do Brasil Colônia. E proponho que a revolução comece nas salas de aula, um espaço em que muitos conseguem entrar para falar de coisas que não incomodem o status quo, mas poucos conseguem entrar para tocar em assuntos delicados. E quem entra, ainda precisa de muita ajuda para se fazer mais claro e ser ouvido pelas futuras gerações. E o foco precisa estar nas futuras, porque parte dessa já está vendida. E foi barato.