Pornografia de revanche

Eder Brito

04 Fevereiro 2015 | 16h56

Vivemos tempos de Big Brother Brasil e outros reality shows que atiçam o lado voyeur da humanidade. Também testemunhamos um período de inclusão digital, em que câmeras de alta resolução integradas a telefones celulares podem registrar quase tudo o que querem, quando querem, do jeito que quiserem, criando o contexto que bem entenderem. Surge uma consequente e estranha “cultura” de compartilhamento de “material pessoal constrangedor”, tema que já tem pautado até o trabalho do legislativo federal, com projetos de leis que pretendem coibir tal prática. O principal é do ex-jogador, ex-Deputado e agora Senador da República, Romário.

Ivamar Pereira de Souza (PT), vereador de Janduis, Rio Grande do Norte foi vítima deste tipo de constrangimento, chamado por alguns de “pornografia de revanche”. Supostamente, o vereador teria sido flagrado fazendo sexo com um homem, no banheiro de um posto de gasolina. Alguém decidiu fotografar o momento e depois distribuiu internet e Whatsapp afora. Dezenas de blogueiros potiguares compartilharam a história que rapidamente se espalhou na pequena Janduis, cidade com menos de 6 mil habitantes.

O caso ocorreu no meio de uma legislatura em que o vereador Ivamar já se encontrava envolvido em disputas políticas delicadas. Parece reinar na cidade um clima de muita instabilidade, com um embate ferrenho e constante entre a oposição (formada por 4 dos 9 vereadores de Janduis, 3 do PT e 1 do PRB) e o governo local, liderado pela Prefeita Lígia de Souza Félix, do PSDB e outros 5 vereadores que lhe garantem apoio na Câmara.

Ivamar teve destaque no meio do conflito. No período em que foi votada uma importante proposta do Executivo, o vereador colocou-se contra o próprio partido. Ajudou a aprovar a ideia da Prefeita de nomear quem quisesse em cargos de comissão, sem fazer qualquer tipo de processo seletivo mais “denso”. Ivamar passou a sofrer ameaças de expulsão do próprio partido. Depois veio o tal “flagra” no posto de gasolina. Fica difícil de saber a relação entre as duas coisas, principalmente por que o vereador se recusa a falar sobre o assunto. Desde o período em que o fato ocorreu (dezembro de 2014), várias teses já apareceram, inclusive uma que dizia que o vereador teria cometido suicídio.

Curioso e com dificuldades de contato com a Câmara Municipal de Janduis e com o vereador, decidi falar com um blogueiro da região, Damião Oliveira, um dos primeiros a noticiar o fato, há dois meses atrás. Além do blog, Damião também é da Rádio Difusora, localizada em Jucurutu, cidade vizinha à Janduis. “Este fato aí do posto de gasolina realmente aconteceu. Alguém fotografou e começou a distribuir via whatsapp pra todo mundo. Agora a história do suicídio é mentira. Não sei quem inventou isso!”, me explicou o radialista. Foi Damião que também me confirmou que seria impossível falar com Ivamar, pois ele jamais se pronunciou sobre o assunto. Lembrou também que a Câmara Municipal está em recesso e eu ainda precisaria esperar algumas semanas para tentar encontrar alguém que falasse em nome do legislativo de Janduis.

Sobram perguntas, mas atrevo-me a ter apenas uma certeza: a carreira política do vereador está prejudicada para sempre. Seria Ivamar uma vítima do preconceito e de uma injusta invasão de privacidade? Ou ele apenas cometeu um erro e não sabe lidar com isso? Neste caso, ainda não tenho todas as respostas necessárias para concluir.